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António Nogueira Leite - Economista 05 de Abril de 2021 às 19:21

Aniversário

Passámos por um grande susto mas ainda corremos o risco de não termos curado de vez a nossa debilidade financeira endémica. Pelo contrário, vejo nuvens lá ao longe.

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A FRASE...

 

"O PSD é directamente responsável pela ‘vinda da troika’."

Pedro Silva Pereira, Observador, 13 de setembro de 2015

 

A ANÁLISE...

 

Faz uma década que o Governo português solicitou ajuda internacional com vista à obtenção de um resgate financeiro que evitasse aquilo que popularmente designamos por bancarrota. Poderíamos pensar que passados dez anos houvesse um diagnóstico consensual sobre as origens da crise e as lições que dela poderíamos retirar. Embora os factos sejam claros, em Portugal estabeleceram-se várias narrativas, algumas das quais não conformáveis com os factos que a antecederam, com a identidade de quem solicitou e negociou a ajuda e a sua condicionalidade, havendo mesmo quem teime em transformar a condicionalidade imposta pelos credores e negociada pelo governo socialista de então em mera vontade dos que foram de seguida eleitos para executar o programa de resgate. No futuro, admito que, com a distância e a seriedade necessárias, a narrativa que adere aos factos venha a sobrepor-se às demais mas, por agora, não penso que os criadores da alternativa da endogenização da "austeridade" como decisão autónoma do governo seguinte estejam disponíveis para abdicar dos seus factos alternativos. É improdutivo debater com quem não está em condições de deixar cair a sua "verdade alternativa" mas, ainda assim, o que me preocupa é que a fuga à verdade possa eliminar a possibilidade de, pela aprendizagem, evitarmos definitivamente as condições para um novo momento de aflição.

 

Penso que, ainda assim, se tornou largamente consensual que os Estados-membros de uma união monetária como a nossa não podem criar e manter os desequilíbrios externos que Portugal criou e manteve entre 1997 e 2011, as empresas não podem funcionar com os baixos níveis de capital com que funcionaram nesse período e o Estado tem de controlar o seu endividamento. Porém, continuamos a não querer ganhar eficácia adicional na produção de bens e serviços públicos recusando reformar a administração, centramo-nos em indicadores de curto prazo (saldos) não discutindo a dinâmica das componentes da despesa que a prazo não conseguiremos financiar e transformamos o efémero em permanente sem grande preocupação (os ganhos dos juros baixos não serão eternos). Ou seja, passámos por um grande susto mas ainda corremos o risco de não termos curado de vez a nossa debilidade financeira endémica. Pelo contrário, vejo nuvens lá ao longe.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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