Jorge Marrão
Jorge Marrão 05 de janeiro de 2016 às 00:01

A troika externa criou a interna

A direita que teve de conviver com a restrição da crise foi insultada por ter de fazer o que tinha de ser feito: acalmar os credores e a Europa.

A FRASE...

 

"Investidores em dívida que perdem tudo no Novo Banco. Anulação de concessões a privados nos transportes. Ameaça de reversão da privatização da TAP. Algo está a mudar em Portugal - e, visto de fora, é como um desodorizante de enxofre. Agora, não o sentimos só nós." 

 

Pedro Santos Guerreiro, Expresso, 31 de Dezembro de 2015

 

A ANÁLISE...

 

Políticos que não entendem a banca e banqueiros que não sabem de política condenam-se mutuamente a longo prazo. Na voragem para conquistar as opiniões públicas, esquecem-se de que os contratos que requerem o maior grau de confiança são os que uma sociedade celebra com os seus bancos e com os seus Estados. A crise obrigou-nos a uma revisão destes contratos. Perdemos, cada um à sua maneira, confiança no Estado e nos sistemas bancários. Uns e outros só deviam ter um objectivo comum: manter a confiança.

 

Ingénua ou propositadamente, a esquerda utilizou a ideologia para se esconder atrás da verdadeira dimensão desta crise. Quando instalada no poder, curvar-se-á perante a Europa, as suas instituições e os mercados de capital e dívida mundiais.

 

A direita que teve de conviver com a restrição da crise foi insultada por ter de fazer o que tinha de ser feito: acalmar os credores e a Europa.

 

Os sistemas bancários irlandês, espanhol e grego não se livraram das ajudas de Estado, nem das da Europa. Tivemos companhia. À boa maneira portuguesa, a responsabilidade da crise tem de ser forçosamente "ad hominem" - dá jeito ao mediatismo da superficialidade e às revanches pessoais. Fugimos do debate político sério: não temos instituições fortes e cúmplices que condicionem as acções de todos os agentes. Nem sabemos como as podemos vir a ter. O verdadeiro regulador político - o Parlamento - é o grande derrotado desta crise. Serviu de fachada para tudo se passar à frente dos nossos olhos.

 

A troika trouxe para o poder os radicalismos e os eternos oposicionistas. Criou a troika portuguesa. Ao Parlamento dependente dos líderes partidários suceder-se-á um Parlamento dependente da vontade dos cidadãos?

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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