Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 20 de maio de 2019 às 19:01

Mundo novo

Neste mundo novo, se a União Europeia não existisse, teria de ser criada, sem o apoio dos americanos e com a hostilidade activa dos russos. É disto que se deve falar quando hoje falamos da Europa.

A FRASE...

 

"De que estamos a falar quando falamos da Europa? Onde estão a sua capital e as suas instituições? O que é um cidadão europeu? O que faz um alto representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros? Não sei."

 

Maria Filomena Mónica, Expresso, 18 de Maio de 2019

A ANÁLISE...

 

Quando se vota nas eleições europeias sem saber o que é, nessa data, o projecto europeu, é natural que essas eleições sejam mais nacionais do que europeias. Nas eleições europeias de Maio de 2019, este refúgio no voto nacional é paradoxal, porque estas são as primeiras eleições em que está ameaçada a possibilidade de uma plataforma política e institucional de escala europeia, quando se manifesta uma frente nacional-populista multinacional, com forças partidárias que têm o objectivo expresso de fragmentar a Europa e de tornar impossível, em nome de preservar as soberanias e identidades nacionais, a formulação de políticas comuns para os Estados europeus.

 

 A União Europeia não é, nem pode ser, o projecto de ter uma capital, de ter cidadãos europeus e de ter uma política externa unitária. As histórias dos Estados europeus, que foram metrópoles de impérios de escala mundial, não autorizam essa fusão, que seria instável se fosse tentada. A alteração das condições em que foi configurada a União Europeia, com a coordenação e participação activa dos Estados Unidos para estabelecer o seu confronto com a União Soviética, não permite manter a forma do projecto inicial como plataforma de aliança estratégica com os Estados Unidos quando estes decidem romper essa aliança, preferindo a crescente aproximação com a Rússia para contrariarem a expansão da China.

 

As eleições europeias de 2019 têm ignorado que está em construção um mundo novo. Não considerando o que são as condições estratégicas deste mundo novo, os europeus escolhem não responder ao que a Grã-Bretanha lhes revela: se a União Europeia reconhece o direito de cada Estado-membro a decidir abandonar esta aliança de Estados, é também a União Europeia que demonstra que não é possível sair desta aliança europeia quando os Estados Unidos abandonam a Europa e preferem o entendimento com a Rússia. Neste mundo novo, se a União Europeia não existisse, teria de ser criada, sem o apoio dos americanos e com a hostilidade activa dos russos. É disto que se deve falar quando hoje falamos da Europa. A alternativa é perder o direito a falar, porque não haverá ninguém para ouvir.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

pub

Marketing Automation certified by E-GOI