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Joaquim Aguiar 08 de Julho de 2020 às 19:20

A força das crises

A empresa do sector do transporte aéreo que é a TAP não resiste à força desta crise se insistir em ser pensada na perspectiva estratégica e na escala nacionais.

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A FRASE...

 

"O complexo do sobrinho mimado da tia rica: se o estroina estampou o carro, lá baterá à porta, compungido, para pedir um subsídio."

 

Francisco Louçã, Expresso, 7 de Julho de 2020

A ANÁLISE...

 

Em Agosto de 1974, três quadros da McKinsey especialistas do sector do transporte naval vieram a Lisboa para avaliar o plano de negócios da Companhia Nacional de Navegação e identificar o que seriam as suas possibilidades futuras depois da mudança do regime político em Portugal. Servindo-se de uma grossa pasta de argolas onde traziam o seu modelo de análise, interrogaram os quadros da empresa e ao fim de duas horas tinham o seu diagnóstico concluído: sendo previsível que as rotas do Sul (o southbound, a reserva para transportadoras portuguesas das rotas comerciais com as colónias) deixariam de ser um factor essencial do plano de negócios depois de concretizada a política de descolonização, a CNN deixaria de ser viável e não tinha no seu horizonte a oportunidade de uma reconversão estratégica. A força da crise política tinha feito desaparecer a condição de existência de uma empresa de transporte naval com a escala que esta tinha.

 

Meses depois, com a crise de 11 de Março de 1975, iniciou-se o processo que conduziu à nacionalização da CNN e o que era a sua impossibilidade prevista passou a ser responsabilidade do Estado. Mas como esse mesmo Estado também tinha a responsabilidade de concretizar a descolonização, era a articulação destas duas responsabilidades contraditórias que criava o duplo constrangimento da impossibilidade: o que se fazia com a mão esquerda impedia o que se queria fazer com a mão direita. Nem o estroina estampou o carro, nem pedir subsídio iria servir para alguma coisa. Descolonizou-se, mas as empresas de transporte naval então existentes desapareceram (e os subsídios também).

 

Com a força que esta crise já tem (e ainda vai aumentar), recordar este exemplo antigo tem interesse para não danificar o que ainda existe e para não se pensar que é com subsídios que se resolve as consequências do acidente. A empresa do sector do transporte aéreo que é a TAP não resiste à força desta crise se insistir em ser pensada na perspectiva estratégica e na escala nacionais. Todas as companhias aéreas europeias enfrentam a mesma força da crise: a sobrevivência de cada uma depende da reconfiguração de todas, por articulação de activos e por organização das rotas através de alianças integradas numa política comum europeia para o sector da navegação aérea.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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