Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 03 de julho de 2017 às 19:16

A crise como arte

Antes de se poder praticar a arte de resolver a crise é preciso ensaiar a arte de interpretar o que está a produzir a crise.

A FRASE...

 

"A arte pelo menos interroga-nos, põe-nos em causa, diz-nos quem somos. Dá-nos uma emoção diferente de todas as outras emoções."

 

Eduardo Lourenço, Entrevista, Revista E, Expresso, 24 de Junho de 2017

 

A ANÁLISE...

 

A crise é um dos outros nomes da arte. Tanto a crise como a arte são produtos humanos perante os quais, com admiração pela arte ou com espanto pela crise, as sociedades se interrogam. Encontrar respostas para essas interrogações é a condição para poderem separar o bem do mal, o verdadeiro do falso, a ordem do caos.

 

Os tempos actuais são de interrogação sobre o que veio pôr em causa a ordem do mundo que conhecíamos desde meados do século XX, mas também são de interrogação sobre o que somos, porque tudo o que está a acontecer resulta de decisões livres tomadas nas sociedades modernas desenvolvidas e enquadradas em sistemas políticos que, com maior ou menor rigor, respeitam os procedimentos democráticos. E, em última análise, são os mesmos que produzem a crise que terão de ter a arte para resolverem a crise que produziram. Antes de se poder praticar a arte de resolver a crise é preciso ensaiar a arte de interpretar o que está a produzir a crise.

 

Os conflitos políticos e estratégicos tradicionais disputavam-se, ao longo de um eixo horizontal, entre posições de direita e de esquerda, entre políticas distributivas (socialistas) e políticas competitivas (liberais), dentro de espaços nacionais fechados, com restrições à mobilidade de pessoas (políticas migratórias) e de capitais (regimes cambiais e autorizações administrativas). Os conflitos políticos e estratégicos do presente (e da crise) disputam-se, ao longo de um eixo vertical, entre os nacionalistas dos espaços fechados e os globalistas dos espaços abertos, entre os dependentes dos protecionismos dos Estados nacionais e os competitivos que criam valor em grandes espaços e têm competências que lhes permitem operar em qualquer geografia.

 

A combinação destes dois eixos, horizontal e vertical, dividiu as sociedades modernas e fragmentou as racionalizações, misturando as posições de esquerda e direita com as posições de inferior e superior. Os que produzem a crise, na esquerda e na direita, ainda não têm a arte para resolver a crise.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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