Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 26 de novembro de 2019 às 09:20

A crise da hegemonia americana

Na política real, tudo é complexo e nada é linear, e a primeira preocupação de quem conquista o poder é esbater as divisões polarizadas e assegurar o respeito das normas internas e dos compromissos externos, sem o que o poder não lhe serve para nada.

A FRASE...

 

"Nunca imaginei que na democracia mais poderosa do mundo fosse possível acontecer o que aí vemos acontecendo." 

 

Vicente Jorge Silva, Público, 17 de Novembro de 2019

 

A ANÁLISE...

 

A crise da hegemonia americana também vai ser a crise da Europa, na medida em que a defesa e segurança dos estados europeus depende da continuidade da Aliança Atlântica e do tratado constituinte da NATO. Essas duas crises poderão vir a ser historicamente designadas como as crises de Trump: um só protagonista desencadeou os processos geradores da polarização populista na política americana contra os imigrantes e em defesa da supremacia branca,  reabilitou o isolacionismo conservador recusando o envolvimento em teatros de guerra distantes, ao mesmo tempo que alterou unilateralmente as redes de alianças, decidiu a instabilização da União Europeia (com o apoio expresso ao Brexit e aos partidos nacional-populistas em vários sistemas políticos europeus), fez desaparecer a ONU e impôs a reversão das normas e condições da liberdade de comércio mundial, ameaçando e desencadeando guerras de tarifas alfandegárias como método de pressão política.

 

A crise da hegemonia americana é uma crise gerada dentro do poder político americano, do mesmo modo que a crise do comunismo soviético, protagonizada por Gorbatchev, foi um produto da dinâmica interna da União Soviética. Mas se a crise do comunismo soviético não implicou uma crise da estrutura de ordem mundial, a crise da hegemonia americana tem como consequência inevitável a desordem no mundo porque não há centro hegemónico de compensação.

 

Nestas crises de Trump não há uma estratégia política, há apenas o efeito da entrada de um amador em política, que estabelece a confusão entre interesse e poder. Quando não há distância entre interesse e poder, tudo é linear e nada é complexo, quem conquista o poder tem o direito, e mesmo o dever, de realizar o seu interesse e nada do que faz pode ser ilegal ou ilegítimo. Esta é a ilusão do populista e do demagogo, para quem ter poder é ter o que quiser. A política não é isso. Na política real, tudo é complexo e nada é linear, e a primeira preocupação de quem conquista o poder é esbater as divisões polarizadas e assegurar o respeito das normas internas e dos compromissos externos, sem o que o poder não lhe serve para nada.  

 

Quando Trump for denunciado, a hegemonia não volta para a América e a estrutura de ordem mundial não será reposta.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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