Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 02 de julho de 2018 às 20:43

A crise do Ocidente

Esquecer que só a política da superioridade dissuasora evita a guerra implica ter de renovar e regenerar a política para reconstruir o que o conflito, por imprudência e erro, destruiu.

A FRASE...

 

"Os novos radicais, à esquerda e à direita, que atacam imigrantes e mercados, que defendem proteccionismo e nacionalizações, dizem-se defensores dos pobres, mas só os pobres que lhes podem dar votos e poder é que lhes interessam."

 

Ricardo Reis, Diário de Notícias, 1 de Julho de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Ensina a cultura chinesa (Sun Tzu) que a arte suprema da guerra é vencer sem combater. Um dos modos de conseguir esta obra-prima será dividir os adversários de forma tão eficaz que eles passem a combater entre si, o que permitirá chegar à vitória sem ter de combater. Outro modo será criar uma tal superioridade em meios militares e em redes de alianças que nenhum adversário encontre vantagem ou possibilidade em abrir um conflito, menos ainda em desencadear um ataque.

 

Ensina a cultura ocidental (Clausewitz) que a guerra é a continuação da política por outros meios. Quando a política, por imprudência ou erro, não consegue evitar a passagem ao extremo da guerra, ainda continuará a ser a política, corrigindo a imprudência e o erro, que terá de encontrar a resolução para o conflito em função do novo quadro de possibilidades que é definido pela vitória de uns e pela derrota de outros. A guerra não anula a política, mas obriga a mudar a política que conduziu à guerra, sem o que a guerra será interminável.

 

Dividir os aliados significa enfraquecer a dissuasão, tornando a guerra provável e até inevitável se todos forem igualmente fracos. Sem o poder da dissuasão, qualquer aventureiro vai querer tentar a sua sorte. Esquecer que só a política da superioridade dissuasora evita a guerra implica ter de renovar e regenerar a política para reconstruir o que o conflito, por imprudência e erro, destruiu.

 

Putin e Trump estão aliados no objectivo de dividir a Europa e de destruir a União Europeia, servindo-se dos movimentos migratórios para estimular correntes políticas populistas e nacionalistas que, fragmentando e feudalizando o continente europeu, estimulam e agravam a pressão migratória, porque esta só pode encontrar resposta eficaz e dissuasora numa política comum europeia - que não poderá existir na fragmentação nacionalista e na feudalização política de Estados exíguos. A crise do Ocidente não é uma crise da globalização e da imigração, é uma crise de reversão de alianças políticas que destrói o poder da dissuasão que evitou ou resolveu as crises e as guerras no Ocidente.

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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