Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 12 de agosto de 2019 às 20:15

A força das coisas

No truque desta mistificação, recebem um bónus: prescrevem os crimes cometidos a coberto das ilusões antigas porque já não há quem as defenda.

A FRASE...

 

"Admirem-se, depois, se António Costa chegar à maioria absoluta. Já era o homem das ‘boas contas’ e agora é também o homem da ‘ordem’." 

 

Vasco Pulido Valente, Público, 10 de Agosto de 2019

 

A ANÁLISE...

 

Nunca o PSD e o CDS teriam um programa de reformas estruturais com a qualidade daquele que as instituições internacionais (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) desenharam para Portugal em 2011. E nunca teria havido uma troika para Portugal sem a bancarrota portuguesa de 2011 (só comparável à bancarrota parcial de 1892, depois do colapso do Baring Brothers de Londres, que teve em Henrique de Burnay o racionalizador interno que satisfez os credores externos). São duas ilustrações exemplares do processo de "interiorização do exterior", em que os desequilíbrios internos são resolvidos e superados pela intervenção externa que rompe ou, pelo menos, suspende, as circularidades distributivas que geram os défices orçamentais e a dívida pública. É a força das coisas contra as fantasias das ilusões.

 

Passaram os anos, mas não se alterou a força das coisas. Os que antes se opuseram às políticas de correcção, iludindo-se com a afirmação de que há sempre alternativas em democracia e que Portugal é um Estado soberano que não se subordina a imposições externas, são agora os gestores políticos do equilíbrio nas contas e da ordem nos conflitos distributivos. É em nome da ordem, nas contas e nas ruas, que promovem o programa da troika sem que seja preciso haver troika, fazendo disso a base justificativa de uma maioria absoluta nas legislativas de Outubro: o segredo do poder absoluto é fazer com que os dominados colaborem na sua dominação. É a ilustração do discurso da servidão voluntária de La Boétie.

 

Para a força das coisas, tudo está bem quando acaba bem - não interessa quem governa, mas como se governa. Para a força das ilusões, é uma mistificação em que os herdeiros renunciam à herança - nasceram outra vez, fizeram desaparecer o passado, mas também não têm futuro porque só se interessam pelo presente. No truque desta mistificação, recebem um bónus: prescrevem os crimes cometidos a coberto das ilusões antigas porque já não há quem as defenda.

 

Artigo está em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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