Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Joaquim Aguiar 16 de Setembro de 2020 às 19:51

A ilusão da política

A política sem ilusões é uma questão de avaliação das possibilidades, as que a realidade efectiva das coisas autoriza e as que os opositores não inviabilizam: sem capital não haverá trabalho e sem União Europeia não haverá financiamento da dívida - poderá haver discurso político, mas não haverá estratégia política.

  • Assine já 1€/1 mês
  • ...

A FRASE...

"Manter a pandemia controlada, possibilitando a recuperação económica e social do país."

 

António Costa, Jornal de Notícias,10 de Setembro de 2020

 

A ANÁLISE...

 

O discurso político tem na sua natureza a garantia de normalização dos sistemas de relações sociais, económicas e internacionais quando estes são perturbados pela formação de desequilíbrios ou pelo choque de acontecimentos imprevistos. Mas o que está na natureza da crise é a descontinuidade em relação ao que a antecede: depois de uma crise, não se volta à normalidade anterior. A natureza da crise, que impõe uma revisão crítica do passado, entra em confronto com a natureza do discurso político, que promete a normalização no futuro, evitando a necessidade da reflexão sobre o passado. Esta desconexão agrava-se nos períodos eleitorais, porque a propaganda que se introduz no discurso político, prometendo a normalização e ignorando a reflexão crítica, prejudica a identificação da natureza da crise, escondendo ou distorcendo a interpretação do que a crise está a revelar: para não discutir o passado, abdica-se de construir o futuro.

 

A peste é um acontecimento imprevisto, mas é um choque que incide sobre sistemas de relações económicas, sociais, políticas e internacionais que já estavam a operar longe do equilíbrio e que já não poderão ser apresentados como o padrão normal a que se quer voltar depois das consequências deste choque. Manter a pandemia controlada já não poderá evitar os custos da destruição que a paralisia da sociedade (para que os contactos não sejam contágios) e o congelamento das economias (com a paragem simultânea da procura e da oferta) provocaram, tornando impossível a recuperação económica e social do país para o que era normal no passado - e que já era uma normalidade em equilíbrio instável, que não era sustentável sem a continuada emissão de dívida externa e que se tornaria uma impossibilidade ao primeiro choque adverso que tivesse de absorver.

 

A política não é uma questão de vontade, a guerra é que é um confronto de vontades. A política sem ilusões é uma questão de avaliação das possibilidades, as que a realidade efectiva das coisas autoriza e as que os opositores não inviabilizam: sem capital não haverá trabalho e sem União Europeia não haverá financiamento da dívida - poderá haver discurso político, mas não haverá estratégia política.

 

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias