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Joaquim Aguiar 15 de Outubro de 2020 às 09:20

A natureza da crise

Não se sai desta crise voltando para o passado, é preciso refundar o futuro - sem repetir as ilusões e as mentiras do passado. A ilusão do poder do passado é agora a tragédia do poder no presente.

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A FRASE...

 

"Um português que tenha nascido há 40 anos já viveu cinco crises económicas e foi apanhado de surpresa pela sexta no início deste ano." 

 

Jorge Nascimento Rodrigues, Expresso, 10 de Outubro de 2020

 

A ANÁLISE...

 

A sexta crise desta série das últimas quatro décadas não tem uma natureza comparável com as anteriores, mas vai incidir sobre o acumulado não resolvido, não interpretado e não interiorizado das cinco crises anteriores. A crise actual não pode ser descrita como um desequilíbrio em relação a um padrão normal que tivesse de ser recuperado por medidas de correcção, nem com o efeito de um conflito de interesses que tivessem de ser conciliados por um processo de negociação. Esta crise não é, como foram as outras cinco, um sistema de ilusões que são apresentadas para esconder a realidade efectiva das coisas, nem é uma articulação de mentiras que têm por finalidade esconder a verdade. Quando se denunciam as ilusões, encontra-se a realidade; quando se investigam as mentiras, encontra-se a verdade.

 

Mas quando uma peste paralisa as sociedades e congela as economias, na mesma conjuntura em que se está a destruir o padrão de ordem mundial e o sistema de normas e instituições que estabelecem as relações de equilíbrio multilaterais, deixa de haver referenciais de orientação para estabilizar os interesses e estabelecer os modos de conciliar os conflitos. Em lugar da racionalidade dos agentes que operam num campo de possibilidades, passa a haver a sobreposição de lutas pela sobrevivência num campo de incerteza, em que não se pode antecipar qual será o resultado da afirmação desses interesses porque já não há um padrão de ordem nem um sistema de equilíbrios que determinem o que são os alvos a atingir em condições sustentáveis.

 

A sexta crise acumula tudo o que não foi resolvido e compreendido nas crises anteriores, mas tem uma natureza diferente, não é o resultado do confronto de interesses sociais e económicos, não é o resultado de uma luta ideológica, é um acidente da natureza que destrói os campos de possibilidade e gera um quadro de incerteza irredutível. Não se sai desta crise voltando para o passado, é preciso refundar o futuro - sem repetir as ilusões e as mentiras do passado. A ilusão do poder do passado é agora a tragédia do poder no presente.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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