Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 18 de novembro de 2015 às 19:11

A retórica e o real

É sempre possível recusar as indicações dos mercados, mas isso implica assumir que a sociedade quer uma economia em que não aceita viver com o que lhe pagam pelo que faz, pois o mercado não é retórico, apenas revela a identidade real da oferta e da procura.

A FRASE...

 

"Hoje, a teoria da soberania limitada é a essência daquilo que se chama a 'Europa' ou as 'regras europeias' (…). Não se faz com as lagartas dos tanques, mas com a torneira do dinheiro."

 

José Pacheco Pereira, Público, 14 de Novembro de 2015

 

A ANÁLISE...

 

A retórica pode ser interminável porque os jogos de palavras podem manter-se indefinidamente, desde que haja quem esteja disposto a ouvi-los e a participar neles. A retórica na política é comparável às preces dos crentes: se estes procuram chamar a atenção da divindade para os seus desejos, os retóricos da política procuram subordinar o real ao que expõem nos seus argumentos. O que a divindade ouve é um mistério, mas o real não obedece a preces e a argumentos. O real é o que é, produz-se a si próprio.

 

É sempre possível voltar à soberania nacional e reconstituir a democracia ilimitada dentro do território nacional. Mas terá de se aceitar a contrapartida: assumir que o rendimento por pessoa será reduzido a metade do que é hoje (porque é esse o potencial do mercado interno depois de perder a escala europeia) e assumir que a incapacidade de pagar os encargos financeiros da dívida acumulada no passado implicará não poder contrair nova dívida. É sempre possível recusar as indicações dos mercados, mas isso implica assumir que a sociedade quer uma economia em que não aceita viver com o que lhe pagam pelo que faz, pois o mercado não é retórico, apenas revela a identidade real da oferta e da procura.

 

A classe média (ou qualquer outra classe de rendimentos) em Portugal não foi atingida pelas políticas de corte de despesas e de aumento de receitas. A classe média foi atingida porque não tem mercado: o que tem para oferecer não encontra procura a esses preços, e a procura que antes tinha era subsidiada pela dívida e distorcida pela captura de rendas corporativas. Em política, a retórica nunca vence o real. A democracia em Portugal sem "regras europeias" não tem mercado, é a oferta que não encontra a procura. Será uma democracia de pobres para pobres - sem tanques e sem dinheiro.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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