Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 17 de janeiro de 2020 às 09:50

As três estagnações

O crescimento potencial da economia portuguesa é baixo, não passando a banda dos dois a três por cento, o que não permite sustentar o aumento da despesa com as políticas sociais nem o investimento em equipamentos e infraestruturas, mesmo em regime de taxas de juro negativas.

A FRASE...

 

"Não qualifico este orçamento apenas pelo seu superavit, mas pela ausência de apoio a um projecto sustentável de crescimento económico." 

 

Manuela Ferreira Leite, Expresso, 11 de Janeiro de 2020

A ANÁLISE...

 

Sabe-se há muito que a sociedade portuguesa, como as outras sociedades da mesma zona cultural, perdeu vitalidade demográfica, tendo trocado a segurança baseada na estrutura familiar pela segurança social garantida pelos dispositivos das políticas públicas. É uma ilusão, porque se a segurança com base na estrutura familiar se ajustava à mudança das circunstâncias, os dispositivos da segurança social, estabelecidos e negociados nas condições do passado, ficam rígidos e insustentáveis quando mudam as circunstâncias, como a taxa de fertilidade e a esperança de vida. E onde houver estagnação demográfica é provável que haja obstáculos ao crescimento económico por falta de recursos humanos e tendência para a inércia política por incapacidade reformadora.

 

Sabe-se há muito que o crescimento potencial da economia portuguesa é baixo, não passando a banda dos dois a três por cento, o que não permite sustentar o aumento da despesa com as políticas sociais nem o investimento em equipamentos e infraestruturas, mesmo em regime de taxas de juro negativas. Apesar da evidência da estagnação na economia, os debates públicos e as negociações sobre políticas de rendimentos persistem na ilusão de que é possível ter um crescimento económico continuado sem ter de assumir o custo e os riscos de reformas estruturais que corrijam o que a mudança das circunstâncias, imposta pela inércia, tem vindo a tornar inevitável.

 

É na estagnação política, porém, que está o indicador mais grave, porque é na esfera política que têm de ser produzidos os diagnósticos das impossibilidades e as linhas de orientação que contribuam para reformular os padrões de comportamento social e as condições do crescimento económico. Na democracia representativa, os eleitores escolhem os dirigentes, mas só podem votar nos partidos que existem. Se estes optam por manter a ilusão da inércia, indiferentes ao que já mudou, e recorrem aos artifícios das alianças oscilantes e ao adormecimento das abstenções, a sociedade fica desarmada perante o futuro e nem sequer compreende o que lhe aconteceu no passado. O sono da razão (e da política) produz monstros.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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