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Joaquim Aguiar 22 de Março de 2021 às 20:20

Da troika ao diabo

Quem não aceita reconhecer os erros cometidos, e que os que nos observam de fora nos revelaram, condena-se a repetir a rota do inferno - e quando lá chegar, voltará a ouvir o que os outros já lhe tinham dito.

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A FRASE...

 

"Defendo a aplicação de uma única regra: um limite na despesa pública que faça a dívida pública caminhar em níveis sustentáveis."

Xavier Debrun (Conselho Orçamental Europeu), Público, 20 de Março de 2021

 

A ANÁLISE...

 

A troika em Portugal foi uma associação de credores que se formou para responder a um pedido de ajuda financeira apresentado por autoridades portuguesas, legitimadas por uma maioria absoluta, mas incompetentes para a condução dos assuntos políticos e para a execução de estratégias de crescimento económico. A legitimidade dessa maioria absoluta foi usada para fomentar o crescimento da dívida, o que tinha como consequência inevitável tornar impossível fomentar o crescimento económico. Como é natural com credores, emprestaram o dinheiro, mas procuraram garantir as condições para que o devedor pudesse pagar o que era emprestado, o que só poderia acontecer se houvesse redução da despesa pública e crescimento económico. 

 

A troika em Portugal trouxe o dinheiro pedido, mas revelou uma evidência mais importante do que o dinheiro: mostrou o que era Portugal visto de fora. Sabe-se que o inferno são sempre os outros, porque nos mostram a imagem de nós que não queremos ver e que, mesmo depois de vermos, não queremos aceitar. Logo que a emergência financeira perdeu intensidade em resultado da austeridade recomendada pelos credores e apoiada na política de juros baixos do Banco Central Europeu, iniciou-se o processo das reversões dos cortes na despesa pública, mas o crescimento económico não voltou. Quem não aceita reconhecer os erros cometidos, e que os que nos observam de fora nos revelaram, condena-se a repetir a rota do inferno - e quando lá chegar, voltará a ouvir o que os outros já lhe tinham dito.

 

A crise da peste paralisou as sociedades e congelou as economias, gerou desequilíbrios tão acentuados que a sua resolução vai implicar a construção de novos padrões de equilíbrio, mas não mudou a realidade efectiva das coisas. Depois da descontinuidade, a reconstrução vai exigir a disciplina na utilização dos recursos que instituições externas disponibilizem e a subordinação voluntária às normas que esses credores estabelecerem - porque mesmo quando forem doações, os doadores vão guardar os recibos para memória futura. E as novas regras que a União Europeia prepara para a regulação da moeda única não serão compatíveis com as reversões: depois de uma troika imperfeita, vem sempre o diabo para nos dizer o que somos, e que não é o que julgamos ser ou o que gostávamos de ser.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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