Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 26 de setembro de 2016 às 19:20

Desigualdades e assimetrias

Numa sociedade endividada, os pobres perdem sempre mais (em percentagem) do que os ricos. Só não será assim nos manicómios.

A FRASE...

 

"Os mais ricos podem pagar mais ou não podem? O estudo que revela que os mais pobres perderam 25% do rendimento e os mais ricos apenas 13% sugere que sim."

 

Paulo Baldaia, Diário de Notícias, 25 de Setembro de 2016

 

A ANÁLISE...

 

Para quem vive confinado num manicómio, os outros internados passaram a constituir a sua normalidade e essa é a referência para os seus comportamentos. Para quem vive numa sociedade que se institucionaliza numa crise de bancarrota, o endividamento e a incapacidade de pagamento passaram a constituir a sua normalidade quotidiana. Qualquer que seja o ângulo de observação, não se vê outra coisa que não sejam os indicadores da dívida - e até se declara que é um sucesso continuar a fazer crescer a dívida a um ritmo inferior a 2,5% ao ano.

 

Uma sociedade não é um manicómio e a institucionalização no estatuto de devedores não pode ser um projecto colectivo. Em algum momento no futuro próximo, vai ser preciso identificar o que é a fonte da dívida e o que tem de ser feito para a estancar. Esta não é uma nova normalidade, é um sintoma de uma patologia que se difundiu na sociedade pretendendo que a doença será a cura. Há dívida? Aumenta-se a dívida para pagar a dívida.

 

Quando se recorre a políticas de redução da despesa e de aumento das receitas, reclama-se que os pobres perderam 25% e os ricos 13% dos seus rendimentos - mas estas percentagens não são comparáveis. Numa sociedade assimétrica, os pobres recebem prestações sociais e os ricos pagam impostos. Quando se reduz a despesa, os pobres perdem. Quando se aumenta a receita, os ricos pagam e os pobres também. Numa sociedade endividada, os pobres perdem sempre mais (em percentagem) do que os ricos. Só não será assim nos manicómios.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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