Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 13 de maio de 2019 às 19:05

Dos impérios à União

O processo de formação e de configuração da União Europeia não é uma repetição do processo de formação e de configuração do Estado nacional: épocas diferentes implicam processos diferentes.

A FRASE...

 

"A crise da Europa e as crises na Europa não se resolvem com mais Europa."

 

António Barreto, Público, 12 de Maio de 2019

 

A ANÁLISE...

 

Luís de Camões viveu em tempos de mudança e de descontinuidade, quando novos mundos se abriram à expansão da Europa e novos mapas tiveram de ser desenhados para que as viagens de ida pudessem também ser viagens de volta. Deixou uma reflexão sobre os seus tempos de mudança que tem relevância para o presente, quando a Europa perdeu as suas redes imperiais com que dominou o mundo e voltou à sua origem - mas não podendo esquecer o que foi, e teve de deixar de ser, quando projecta o que há-de ser, dentro das margens estreitas do que pode ser. "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/Muda-se o ser, muda-se a confiança:/Todo o mundo é composto de mudança,/Tomando sempre novas qualidades/ […] E afora este mudar-se cada dia,/Outra mudança faz de mor espanto,/Que não se muda já como soía."

 

Quem comete a imprudência de conduzir a olhar pelo retrovisor, condena-se ao acidente na primeira curva, já não poderá fazer a segunda, Quem escolhe o destino num mapa antigo, nem percebe porque é que não chega ao fim da viagem. Na mudança, também muda o modo da mudança, e quem quiser mudar como se mudava no passado condena-se a ter de ficar a ver os outros mudarem.

 

A União Europeia não poderia existir no tempo dos impérios europeus, mas são os mesmos factores que forçaram os Estados europeus a abandonar as suas posições imperiais que tornam necessária a aliança de Estados europeus para configurarem uma União Europeia. Esta configuração não depende de questões de identidade nem de soberania, que foram atributos para a formação dos Estados nacionais e para a superação das guerras entre Estados europeus por questões religiosas. A configuração da União Europeia responde à necessidade de estabelecer a plataforma de políticas comuns que os Estados nacionais, com a sua identidade e a sua soberania, não conseguem realizar porque não têm nem escala nem recursos. O processo de formação e de configuração da União Europeia não é uma repetição do processo de formação e de configuração do Estado nacional: épocas diferentes implicam processos diferentes.

 

Artigo está em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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