Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 25 de abril de 2018 às 18:30

Durar sem governar

Com o nível de dívida herdada do passado, a taxa de juro é a condição necessária para que possa ser emitida mais dívida para amortizar a dívida anterior (e serão precisas duas ou três décadas para se conseguir sair deste carrossel).

A FRASE...

 

"Mário Centeno aceita os mesmos critérios que aceitava Vítor Gaspar (…) ainda que num quadro diferente, em que o Governo está condicionado pela Assembleia da República e em particular pela força que o PCP tem tido para impor outro sentido às políticas."

 

João Oliveira, Diário de Notícias, 23 de Abril de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Tem sido muito sublinhada a habilidade com que António Costa se movimenta no espaço partidário, tendo conseguido fazer desaparecer a oposição, tanto à direita (com quem celebra acordos de regime, para a descentralização e para a aplicação de fundos europeus, mostrando-se disposto a alargar este procedimento a outras áreas das políticas públicas) como à esquerda (com quem celebrou acordos de maioria parlamentar, mostrando-se interessado em manter este tipo de relação depois das eleições legislativas, qualquer que venha a ser o seu resultado - isto é, mesmo que não seja preciso ter um acordo de maioria parlamentar). Um campo partidário em que desaparece a oposição é um padrão singular, uma forma superior de concretizar os projectos de Salgado Zenha (PS partido-charneira) e de Afonso Costa (ninguém pode governar contra o Partido Democrático). Mas tendo atingido este resultado extraordinário no sistema de relações entre partidos, que vantagem obteve no plano da governação? Esta habilidade permite durar no poder por muito tempo, mas não permite governar.

 

Não é por deficiência de personalidade que Centeno é equivalente a Gaspar, é a realidade efectiva das coisas que impõe esta convergência. Seja quem for que queira governar Portugal terá de reconhecer que o seu programa terá dois alicerces inamovíveis. Um resulta do fim do império: sem colónias, Portugal precisa da Europa para atingir a escala em que possa sustentar o nível de desenvolvimento que já atingiu - e sem esse alicerce terá de se resignar à regressão e ao empobrecimento. O outro alicerce é a taxa de juro (ou a notação das agências de "rating"): com o nível de dívida herdada do passado, a taxa de juro é a condição necessária para que possa ser emitida mais dívida para amortizar a dívida anterior (e serão precisas duas ou três décadas para se conseguir sair deste carrossel). São estes dois alicerces fixos que produzem a equivalência de Centeno e Gaspar.

 

Na origem de tudo: o modelo de sociedade (escrito na Constituição) não é compatível com o modelo económico (sem império e sem centros de acumulação de capital). Este é o motor que mantém o carrossel da dívida em movimento. Governar é tornar os dois modelos - da sociedade e da economia - compatíveis.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

pub

Marketing Automation certified by E-GOI