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Joaquim Aguiar 30 de Setembro de 2020 às 21:15

Exigir o impossível

Um revolucionário exige o impossível para mostrar que quem está no poder não sabe realizar esse ideal. Um democrata não aceita violar o critério da possibilidade porque sabe que a ilusão no presente, mesmo que seja vitoriada pelos iludidos com as promessas, significa a escravatura no futuro.

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A FRASE...

 

"Nós não estamos a exigir 850 euros em Janeiro de 2021, estamos a exigir que se caminhe rapidamente para esses 850 euros". 

 

Isabel Camarinha, Lusa, 26 de Setembro de 2020

A ANÁLISE...

 

Está na natureza de um revolucionário exigir o impossível para se manter em permanente mobilização para a luta. Quem pede o impossível construiu a garantia de que continuará a ter a oportunidade para voltar a pedir o impossível, assegurando que a luta continua até à vitória final - e não é porque a vitória não chega que a mobilização enfraquece, antes reforça a determinação da fé revolucionária. Um democrata respeita uma regra muito diferente: tem de identificar o que é possível, incluindo nessa identificação a existência de revolucionários que irão exigir o impossível, e organizar a convergência das expectativas e das vontades para, no quadro dos recursos existentes, concretizar os objectivos que estejam dentro desse campo de possibilidades. Um revolucionário exige o impossível para mostrar que quem está no poder não sabe realizar esse ideal. Um democrata não aceita violar o critério da possibilidade porque sabe que a ilusão no presente, mesmo que seja vitoriada pelos iludidos com as promessas, significa a escravatura no futuro, imposta pelo peso das circunstâncias que são consequência dessa ilusão.

 

A coligação de democratas com revolucionários poderá oferecer uma base numérica maioritária que sustenta o exercício do poder, mas não resolve a incompatibilidade do que está nas naturezas diferentes do revolucionário e do democrata. Poderá haver maioria entre quem exige o impossível e quem defende o possível, mas não haverá coerência e isso torna-se evidente sempre que a mudança das circunstâncias provocadas por uma crise inesperada, como é a que resulta dos efeitos da peste, contrai o espaço do possível, mas deixa na mesma os que exigem o impossível. Uma maioria estável (porque sustenta o poder), mas incoerente (porque quer fazer coexistir democratas e revolucionários) não resiste a uma contracção súbita do campo de possibilidades, mas mostra que o alargamento do campo da governabilidade, integrando revolucionários e democratas, será sempre uma ilusão política.

 

E agora? Insistir na ilusão é a via segura para não encontrar o real e, como temos vindo a fazer há décadas, trocá-lo pela dívida e pela submissão aos que nos emprestam para cobrir a distância que vai da ilusão ao real.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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