Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 15 de agosto de 2018 às 19:00

Feliz & Contente, Lda. 

Em Portugal, o Presidente está feliz e o primeiro-ministro está contente, mas a sociedade que fundaram é de responsabilidade limitada: em caso de falência perdem o capital social, mas preservam os patrimónios pessoais.

A FRASE...

 

"Perante a situação do país hoje, faz mais sentido mudar ou continuar?"

 

António Costa, Expresso, 11 de Agosto de 2018

 

A ANÁLISE...

 

A evolução na continuidade foi um projecto de poder que acabou na mudança do regime político. E não foi porque houvesse um programa político alternativo. Foi simplesmente porque a insistência na continuidade produziu a mudança, ao querer esconder que essa continuidade era impossível desde que foram desmantelados os impérios europeus, depois da Segunda Guerra Mundial, para que a hegemonia dos Estados Unidos, como construtores e gestores da ordem mundial, se pudesse afirmar. As vontades nacionalistas, por determinadas que sejam, não podem sustentar a continuidade quando há mudança no mundo - e só haverá continuidade para aqueles que souberem evoluir com essa mudança do mundo.

 

Em 2008, uma crise financeira nas economias do Ocidente veio revelar que os movimentos de capitais globalizados tornavam obsoletos os tradicionais instrumentos de correcção dos desequilíbrios entre economias nacionais, com as taxas de juro e as taxas de câmbio a amplificarem os desequilíbrios em lugar de os corrigir. Controlar os factores geradores de endividamento - os défices orçamentais gerados pelas políticas públicas, os défices comerciais gerados pelos diferenciais de competitividade - passou a ser a condição essencial da soberania e da estabilidade das regiões económicas. Mas nem a soberania é nacional (porque depende da qualidade da integração em espaços económicos que tenham escala adequada para a competição em mercados abertos) nem a estabilidade das regiões é garantida (porque depende da qualidade das políticas comuns que estruturam os espaços económicos e respondem aos desafios colocados pela mudança).

 

Em Portugal, o Presidente está feliz e o primeiro-ministro está contente, mas a sociedade que fundaram é de responsabilidade limitada: em caso de falência perdem o capital social, mas preservam os patrimónios pessoais. É porque optam por não correr riscos que continuam a ignorar a crise de 2008 e as suas consequências, escolhendo a continuidade do que já não existe. Numa crise de descontinuidade, como aquela em que estamos, até os patrimónios pessoais se perdem, não há responsabilidades limitadas.  

 

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

pub

Marketing Automation certified by E-GOI