Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 13 de novembro de 2019 às 19:50

Fragmentação dos eleitorados

As eleições em Espanha do dia 10 mostram que o eleitorado nem consegue afastar os que não satisfazem, nem consegue formar uma plataforma de poder que permita formar um governo.

A FRASE...

 

"Há um determinado PS, muito provavelmente o mesmo que queria um acordo escrito com a esquerda radical, que não acredita que este governo dure muito tempo."

 

 

João Vieira Pereira, Expresso, 9 de Novembro de 2019

A ANÁLISE...

 

A maior ameaça que um sistema democrático coloca a si próprio é a que resulta da fragmentação do eleitorado, porque o sistema de partidos não consegue estabilizar as expectativas que se formam nos diversos grupos sociais sobre o que deve ser o exercício do poder. Quando essa ameaça se manifesta em diversos sistemas democráticos, como acontece agora na Europa, o diagnóstico de uma crise de orientação já não é uma hipótese, passa a ser a realidade efectiva das coisas - e é inútil continuar a esperar que os equilíbrios do passado recente possam ser reconstituídos.

 

As eleições em Espanha do dia 10 mostram que o eleitorado nem consegue afastar os que não satisfazem, nem consegue formar uma plataforma de poder que permita formar um governo. Esta fragmentação do eleitorado, que não é exclusiva do caso espanhol, não pode ser corrigida com a formação de coligação de partidos quando nenhum deles revelou suficiente capacidade de atracção para as suas propostas: uma maioria que seja um somatório de minorias não será uma plataforma com potência mobilizadora para poder ser um centro de orientação estratégica. A fragmentação do eleitorado é o sintoma de que a crise política é o resultado da sobreposição de expectativas que são inconciliáveis entre si ou que não têm correspondência com as condições objectivas do campo político.

 

O que está a acontecer na política europeia - da Grã-Bretanha à Alemanha, de Itália a França, de Espanha a Portugal - não é independente da iniciativa dos Estados Unidos de desmantelar a ordem mundial por eles próprios estabelecida, de fragmentar a Europa, que antes promoveram, com o seu actual apoio a movimentos nacionalistas e populistas, e com a efectiva destruição da NATO, o que deixa em aberto a questão da defesa na Europa. É a América de Trump que muda o campo político dos Estados europeus, e tudo isso só poderá ter respostas na escala europeia, isto é, na União Europeia - que é agora a defesa em última instância das democracias europeias, o seu centro de orientação estratégica que supere a fragmentação dos eleitorados nacionais. 

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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