Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 05 de novembro de 2019 às 19:20

Gestão de alternativas

O chefe de um governo minoritário é um gestor de expectativas, não no sentido habitual de ir satisfazendo as necessidades dos eleitores, mas sim no sentido de impedir que os eleitores pressintam a possibilidade de uma alternativa.

A FRASE...

 

"Se Marcelo se decidir por um segundo mandato, muito provavelmente afastará o PS para mais verdes pastagens"

 

Vasco Pulido Valente, Público, 2 de Novembro de 2019

 

A ANÁLISE...

 

Nos assuntos políticos, é mais fácil falar de alternativas do que construir uma alternativa efectiva. E pode mesmo acontecer que todas as alternativas propostas se revelem de qualidade inferior ao que existe, pelo que acabará por se impor a aceitação resignada da continuação do que existe. Não é uma escolha, é uma subordinação voluntária, é o fado do destino. É nesta propriedade que se baseia a defesa posicional de um governo minoritário: não teve a adesão da maioria, mas as outras minorias não formam uma alternativa consistente.

 

Nestas condições, o chefe de um governo minoritário é um gestor de expectativas, não no sentido habitual de ir satisfazendo as necessidades dos eleitores, mas sim no sentido de impedir que os eleitores pressintam a possibilidade de uma alternativa. Um governo minoritário, bem posicionado no centro do sistema de partidos, é um neutralizador de alternativas, e só pode ser atingido pela acumulação de problemas que não consegue resolver - e quanto mais eficiente for na neutralização das alternativas, mais inevitável será que termine numa crise de grande intensidade, pois só pode ser derrubado por ele próprio.

 

O Presidente da República situa-se num plano muito diferente. Ele tem a responsabilidade de assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas, o que implica que seja responsável não só pela qualidade do funcionamento do sistema de partidos, mas também pela garantia de que os eleitores tenham sempre oportunidade de escolha, não fiquem condenados ao fado do destino. O Presidente da República é um gestor de alternativas e as suas funções ficam sem conteúdo político se permitir que as alternativas sejam neutralizadas, porque isso implicaria que fosse um cúmplice voluntário no processo que conduz a uma crise de grande intensidade que irá derrubar o governo sem que se tenha preparado uma alternativa consistente. É aqui que está a origem do conflito inevitável entre um primeiro-ministro de um governo minoritário com uma estratégia de charneira e o Presidente da República que tem a responsabilidade de assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

pub

Marketing Automation certified by E-GOI