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Joaquim Aguiar 29 de Agosto de 2018 às 20:15

Horizonte ou retrovisor

A teoria das duas faces de Centeno, uma para consumo interno para ganhar votos (contra a austeridade), outra para consumo externo para ganhar carreira internacional (a favor da austeridade), pertence ao mesmo padrão de ilusão da teoria dos dois lados de Trump.

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A FRASE...

 

"É pueril atacar um governo por fazer o que o próprio crítico entende estar certo."

 

Francisco Louçã, Expresso, 25 de Agosto de 2018

 

A ANÁLISE...

 

A teoria dos dois lados, de que Trump se serve para dividir os americanos, é um sintoma da fadiga do poder hegemónico dos Estados Unidos. Trump pretende trocar os custos da gestão dos equilíbrios mundiais (ignorando que as alianças custam menos e são mais competitivas do que a dominação directa dos colonialismos) pelos negócios das áreas de influência entre potências regionais dominantes (cada uma das quais ficaria com a sua rede de clientelas, que teriam de satisfazer com políticas de assistência e de garantia de segurança, mais caras para a potência regional dominante e menos competitivas do que seria o regime das quatro liberdades de circulação de mercadorias, de serviços, de pessoas e de capitais). Os americanos cansaram-se de dominar o mundo e a supremacia branca na América está a uma década de ser minoria eleitoral por razões estritamente internas, demográficas. Mas o fim de uma época de poder hegemónico abre a oportunidade para a formação de outro centro hegemónico: o poder, à escala do mundo, não se negoceia, ocupa-se e exerce-se. 

 

A teoria das duas faces de Centeno, uma para consumo interno para ganhar votos (contra a austeridade), outra para consumo externo para ganhar carreira internacional (a favor da austeridade), pertence ao mesmo padrão de ilusão da teoria dos dois lados de Trump: analisa os acontecimentos e as possibilidades à luz dos padrões e teorias do passado, não compreendendo que o horizonte real mudou, implicando que também mudem os referenciais de análise. A crise financeira que se iniciou em 2008 (e continua sem resolução) não foi, e não é, uma questão de cortes e austeridade ou de estímulos e crescimento, como não foi, e não é, uma questão de globalização competitiva ou do nacionalismo proteccionista. Foi, e é, uma mudança dos circuitos financeiros na escala mundial, por onde circulam as moedas fortes e as moedas falsas, os capitais e as dívidas - e que nenhuma entidade de base nacional pode pretender controlar ou corrigir.

 

Quem avançar orientando-se pelo retrovisor está condenado a não ver o horizonte.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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