Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 08 de outubro de 2019 às 09:30

Identificar o impossível

Já há resultados. Mas haverá solução? A passagem dos resultados para as soluções depende da leitura que os responsáveis partidários quiserem fazer dos resultados, da sua tradução em deputados e da sua conversão em estratégias políticas e programáticas.

A FRASE...

 

"Com um PS com mais deputados que o bloco à sua direita, poderemos ter um executivo que navegará à vista, umas vezes à direita outras à esquerda."

Pedro Adão e Silva, Expresso, 4 de Outubro de 2019

 

A ANÁLISE...

 

Já há resultados. Mas haverá solução? A passagem dos resultados para as soluções depende da leitura que os responsáveis partidários quiserem fazer dos resultados, da sua tradução em deputados e da sua conversão em estratégias políticas e programáticas. Os eleitores têm sempre razão, mas não sabem qual é a razão que têm, precisam de esperar pelo eco que o que escolheram nas urnas irá ter nos discursos dos políticos. E a política só superficialmente é a arte do possível. De facto, e em profundidade, a política é a arte de identificar o impossível para não ir por aí. E há possíveis no imediato que se revelam impossíveis a prazo.

 

Os resultados confirmam que a política distributiva, executada numa óptica interna, e as políticas de reversão das medidas de austeridade impostas pelo desequilíbrio do endividamento, executadas numa óptica acomodatícia das normas da União Europeia, foram premiadas pelo eleitorado. Mas os responsáveis políticos sabem que as políticas distributivas conduzem a um regime de rendimentos decrescentes: quanto mais se distribui, mais se empobrece. E os responsáveis políticos portugueses têm a obrigação de saber que o crescimento da economia e a modernização da sociedade só foram possíveis quando Portugal se abriu ao exterior. É uma questão de escala: quanto mais fechado e nacionalista Portugal for, mais estagnado e pobre será. Os eleitores podem não o saber, mas os responsáveis políticos não o podem ignorar - porque se o ignorarem avançam para o impossível.

Os resultados configuram a solução de governo: será a estratégia de charneira que está na natureza do PS, serpenteando entre o possível e o impossível, sempre junto aos abismos das conjunturas. Mais uma vez, o destino da política portuguesa estará dependente do exterior. Mas se é assim, melhor será abandonar a ilusão distributiva e fazer convergir as vontades e os recursos nas estratégias competitivas de viabilização das empresas, de conquista de mercados e de modernização dos serviços públicos. O exterior que conta são quotas de mercado e atractividade de capitais: é aqui que está a solução política.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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