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Joaquim Aguiar 29 de Outubro de 2020 às 10:15

Incerteza e responsabilidade

Nos tempos de incerteza e de inevitável transformação, é maior a responsabilidade da política (que trabalha com a realidade efectiva das coisas) e dos políticos (que não se podem refugiar num labirinto de espelhos em que, para onde quer que olhem, só se vêem a eles próprios).

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A FRASE...

 

"Toda a organização política mundial vai ter de ser recriada."

Adriano Moreira, Diário de Notícias, 24 de Outubro de 2020

 

A ANÁLISE...

 

Há incertezas que são criadas pela sobreposição de certezas opostas. Cada uma é inevitável, mas a sua articulação reforça ambas, e a incerteza resulta de não se poder saber o que vai ser, e quando vai ser, o resultado integrado dessa sobreposição de certezas. É o que acontece agora com uma crise sanitária que desencadeia uma crise económica de grande intensidade: para resolver a crise sanitária que paralisa as relações sociais, induz-se uma crise económica com o bloqueamento das relações e dos fluxos económicos. Mas o resultado integrado dessas certezas vai aparecer na forma de uma crise política inesperada, que resultará menos de um confronto de programas e de ideias (não chega a ser uma revolução política ou uma mudança de regime) mas muito mais da alteração do campo de possibilidades políticas (num período muito curto, e sem que haja protagonistas a comandar este processo, a realidade muda, as condições de acção alteram-se, os padrões de referência transformam-se, a evolução na continuidade revela-se a precipitação na descontinuidade).

 

Os balanços das empresas são destruídos, o sistema bancário fica submerso nas moratórias e nas imparidades, desaparecem empregos e rendimentos, o que era capital dissolve-se em dívida e o que se mantiver por efeito de subsídios ou de transferências, internas e externas, está, de facto, a ser financiado por dívida a resgatar no futuro. Mas as ideologias políticas e as posições dos partidos, que se estruturaram em função das condições de acção do passado, não podem persistir nas suas formulações tradicionais, como se nada de extraordinário estivesse agora a acontecer. Nos tempos de incerteza e de inevitável transformação, é maior a responsabilidade da política (que trabalha com a realidade efectiva das coisas) e dos políticos (que não se podem refugiar num labirinto de espelhos em que, para onde quer que olhem, só se vêem a eles próprios).

 

Quando se observa a crise política gerada pela crise sanitária e pela crise económica é inevitável reconhecer que a dívida que está a ser gerada só pode encontrar resposta na escala europeia e na garantia que a União Europeia oferece aos mercados onde esta dívida pode ser colocada. Esta é a nova realidade efectiva das coisas - e fora dela não há política, só haverá jogos de espelhos.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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