Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 21 de outubro de 2019 às 20:40

Interiorizar o exterior

Em Portugal, houve crescimento económico e convergência com as economias mais desenvolvidas enquanto houve impulsos externos que alargaram a escala dos mercados e atraíram investimentos externos.

A FRASE...

 

"Entre 1960 e meados dos anos 90, o PIB per capita português, em percentagem da UE15, exibiu uma trajectória ascendente, traduzindo-se num longo período de convergência real. Em contraste, o período entre meados dos anos 90 e a actualidade é caracterizado por uma estagnação do processo de convergência da economia portuguesa."

Boletim Económico, Banco de Portugal, pag. 101, Outubro de 2019

A ANÁLISE...

 

Nesta época em que o nacionalismo se converteu em populismo e a decisão política se vê confrontada com as exigências dos que esperam encontrar no refúgio das identidades nacionais e nas protecções das fronteiras as defesas contra os desafios da competitividade, é útil reflectir sobre os resultados de uma observação empírica publicada pelo Banco de Portugal sobre o que foi a evolução do PIB per capita em Portugal entre 1960 e 2019.

É um período que atravessa diversas épocas, desde os tempos de um império colonial até aos tempos de uma sociedade integrada no espaço regional europeu, passando por diversas crises, desde uma mudança de regime político até três intervenções externas por entidades financeiras internacionais. É um período suficientemente diversificado para se poder observar o que é um contexto de ordem mundial dotada de um centro hegemónico estável e o que é a sua degradação quando o nacionalismo populista fecha as sociedades e rompe as alianças políticas e as relações económicas internacionais, para as subordinar aos interesses dos poderes políticos nacionais.

Em Portugal, houve crescimento económico e convergência com as economias mais desenvolvidas enquanto houve impulsos externos que alargaram a escala dos mercados e atraíram investimentos externos. Primeiro com a EFTA (e apesar da guerra colonial), depois com a integração europeia e o alargamento da escala de oportunidades (em mercados e em fundos comunitários, e apesar do fim do império). Até que, depois de 1995, o retorno a uma lógica interna de políticas distributivas não só fez enfraquecer o estímulo externo como gerou uma crise de endividamento público e privado, dois factores que interromperam o processo de convergência.

O que se passou em Portugal mostra o que realmente está contido nas promessas do nacionalismo populista: quando uma sociedade e uma economia se fecham no seu interior perdem o efeito de modernização que resulta da interiorização do exterior, da utilização dos impulsos externos para modernizar o interior. O nacionalismo populista implica o autoritarismo político, mas já não haverá crescimento ou convergência.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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