Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 08 de agosto de 2018 às 18:47

Memória para o futuro

Se o pecado das elites rascas que geram o país pobre é a porta giratória entre o público e o privado, terá de se recordar que na porta giratória é preciso que um empurre para que o outro passe.

A FRASE...

 

"País pobre, elites rascas… Um sistema de vasos comunicantes, entre público e privado, deu livre-trânsito a uma elite de experts, hábeis na manipulação de concursos, adjudicações e contratos, em que o país perdia sempre… para os parceiros ganharem sempre."

 

Filipe Pinhal, Sol, 4 de Agosto de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Quando o futuro se apresenta como um buraco negro, que atrai tudo e não deixa iluminar nada, recordar o passado poderá parecer um luxo de diletantes, de quem não se apercebe da intensidade das crises que se anunciam para o futuro imediato. Para que serve voltar a dizer que Portugal é um país pobre de elites rascas, ou que em dez anos o PSI-20 se tornou insignificante e os bancos privados deixaram de ser portugueses? A força dos factos consumados, do que já aconteceu e não pode ser emendado, não deve fazer esquecer esta recomendação do Papa Francisco, a propósito de um outro tipo de factos consumados: "Confessar o pecado é necessário, procurar remediá-lo é urgente, conhecer as raízes do mesmo é sabedoria para o presente-futuro." (Público, 5 de Agosto de 2018).

 

Os pecados a que se refere o Papa, que são cruciais para a credibilidade da Igreja de Roma, não são do mesmo tipo dos pecados a que se refere Filipe Pinhal no seu artigo, que são cruciais para estabelecer o que são as possibilidades da economia portuguesa no futuro. Mas o facto de ambos terem sido observadores directos dos pecados a que se referem faz deles bons pretextos de reflexão nestes tempos em que vai ser preciso pensar tudo de novo e onde o maior risco é que se voltem a cometer os mesmos pecados do passado.

 

Se o pecado das elites rascas que geram o país pobre é a porta giratória entre o público e o privado, terá de se recordar que na porta giratória é preciso que um empurre para que o outro passe. É quem tem o poder formal legitimado, que o torna dono (temporário) da porta, que tem o poder de iniciativa para fazer rodar a porta giratória. Quem produz as elites rascas é o poder político, que as forma (porque tem o poder e os recursos para isso) e que não as denuncia nem as destrói (porque também tem os meios para o fazer se quiser). Foi o poder político que criou os desequilíbrios na economia da destruição de capital com as nacionalizações e dos excessos de despesa com políticas públicas que geraram a dívida pelo somatório dos défices orçamentais. Foi o poder político que negociou três programas de assistência e não soube explicá-los à sociedade e aos eleitores. Conhecer as raízes do país pobre é sabedoria para o presente-futuro. Palavras de sua Santidade.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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