Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 18 de fevereiro de 2014 às 00:01

No fim da mentira

Uma crise de endividamento é uma crise gerada pela mentira. As receitas não cobrem as despesas, mas as decisões políticas continuam a aumentar a despesa quando não querem, e se quisessem não podiam, aumentar a receita.

 

A FRASE...

 

"A entrevista é um relato angustiado sobre a impossibilidade de mudar os alicerces do sistema político e económico que nos levou à ruína. (…) O espelho onde Vítor Gaspar reflecte a realidade que viveu mostra que o ovo da serpente continua lá."

 

Luís Marques, "O espelho de Vítor Gaspar", Massa Crítica, Expresso, 15 de Fevereiro de 2014

 

A ANÁLISE...

 

Um país que tem na sua história um longo período de convívio com juízes da Inquisição sabe, no seu inconsciente colectivo, que a verdade não será o que é dito que é. A verdade é o que há-de aparecer quando se verificar que é mentira o que era dito que era a verdade.

Uma crise de endividamento é uma crise gerada pela mentira. As receitas não cobrem as despesas, mas as decisões políticas continuam a aumentar a despesa quando não querem, e se quisessem não podiam, aumentar a receita. A mentira política dura pouco quando não se tem moeda própria e não se pode esconder essa mentira com as mentiras maiores que são a inflação e a desvalorização cambial. Ainda dura menos quando não se tem capital. Com a descolonização e as nacionalizações, a política portuguesa destruiu capital numa escala inédita. Com as privatizações, a política portuguesa promoveu a mentira de querer fazer da dívida o equivalente do capital – e quando precisou de capital para enfrentar os desafios da competitividade, teve de ir contrair ainda mais dívida. E a mentira política não dura nada quando se pretende financiar a política distributiva com um número decrescente de contribuintes a sustentar um número crescente de beneficiários (em número e em anos de vida).

Não encontrei angústia na acção política de Vítor Gaspar, nem a vejo no registo dessa sua experiência na forma de entrevista. O que vi, e vejo, é a serenidade e a determinação de quem chegou ao fim da mentira.

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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