Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 27 de junho de 2016 às 20:10

O choque da realidade

Se não houver União Europeia, com os seus recursos e regras de regulação comuns, cada nação europeia terá de ser capaz de viver com o que a sua economia produz, não podendo recorrer aos tormentos do défice e da dívida.

A FRASE...

 

"Mais do que nunca, Portugal tem absoluta necessidade de ser capaz de viver com o que a economia produz. Mais do que nunca, o défice e a dívida são os tormentos com os quais não pode haver tolerância."

 

Manuel Carvalho, Público, 26 de Junho de 2016

 

A ANÁLISE...

 

A indeterminação política que se encontra na escala da União Europeia tem o mesmo padrão da instabilidade que se encontra em cada um dos seus Estados-membros. O confronto essencial está na disputa entre o nacionalismo e o integracionismo. Esta é a verdadeira clivagem constituinte da União Europeia - e não a sua versão suave, em que a finalidade da União Europeia seria evitar a guerra na Europa. O que evita a guerra na Europa é o fim dos impérios europeus e das tentativas de formação de impérios pelas potências europeias que não os tinham. A Segunda Guerra Mundial foi a última guerra imperial europeia que acabou com os impérios europeus, obrigando todas as nações europeias a encontrar uma resposta às suas limitações de escala, que já não poderia ser obtida através da expansão imperial.

 

A resposta foi o projecto de integração na Europa, como o dispositivo institucional e estratégico que permitia responder à insuficiência de escala de cada Estado europeu. Para ser viável, com crescimento económico e com financiamento das políticas públicas, o nacionalismo na Europa tem de ser expansionista e imperial. Porque já não o pode ser, a viabilidade dos Estados europeus tem de estar na integração, na formação de recursos comuns subordinados a regras de regulação comuns, voluntariamente aceites. Não foi por acaso ou comodidade que o fim do império português foi compensado com a integração na Europa. 

 

Se não houver União Europeia, com os seus recursos e regras de regulação comuns, cada nação europeia terá de ser capaz de viver com o que a sua economia produz, não podendo recorrer aos tormentos do défice e da dívida. Se isso acontecer, todos os que reclamam o direito da livre escolha pelo eleitorado nacional vão verificar que a soberania sem escala é o inferno da estagnação e da miséria.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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