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Joaquim Aguiar 08 de Setembro de 2014 às 20:40

O culpado e as culpas dos outros

A única defesa eficaz contra crises de grande intensidade é o regular funcionamento das instituições e, em primeira linha, a responsabilidade dos agentes políticos para manterem as sociedades dentro do seu campo de possibilidades.

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A FRASE...

 

"Ricardo Salgado sabe muito mais do que aquilo que podemos imaginar. Ele é um homem-bomba, que tira o sono a muita gente. O "dono disto tudo", assim conhecido nos bastidores, é agora associado, na opinião pública, ao poder que controlou o país nas últimas décadas".

 

Luís Marques, O homem-bomba, Expresso, 6 de Setembro de 2014.

 

A ANÁLISE...

 

Um dispositivo de defesa de que se podem servir as sociedades que mergulham numa crise de grande intensidade é a identificação de um bode expiatório, aquele que pode ser denunciado como o "culpado disto tudo" e cujo sacrifício, real ou ritual, constituirá a absolvição do colectivo: a acusação de um é a prova da inocência de todos. A sociedade poderá mudar de rumo e continuar sem ter de mudar os seus comportamentos, as suas expectativas e as suas estratégias – até à próxima crise de grande intensidade, onde se voltará a procurar o culpado disso tudo para que o colectivo possa continuar a dizer-se inocente.

 

É por a história de cada crise de grande intensidade ser mal contada que essas crises se repetem. Para que haja um culpado disto tudo, é preciso que muitos tenham colaborado e participado, mas também é preciso que a sociedade tenha convivido com tudo isto como se esta fosse a ordem natural das coisas. Quando se recorre ao dispositivo do bode expiatório é porque não se quer interpretar o que aconteceu.

 

A única defesa eficaz contra crises de grande intensidade é o regular funcionamento das instituições e, em primeira linha, a responsabilidade dos agentes políticos para manterem as sociedades dentro do seu campo de possibilidades. Quando os partidos do regime esquecem esta responsabilidade, abrem o caminho aos bancos do regime e aos homem-bomba: mas quem abre a porta tem mais culpa do que quem passa o pórtico das imparidades.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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