Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 23 de julho de 2019 às 18:53

O fim dos impérios

A União Europeia é uma escala - e esta é a diferença estratégica crucial, porque é por isso que a União Europeia é o que as nações e os Estados da Europa não podem ser.

A FRASE...

 

"Não existe uma democracia europeia, muito menos uma cidadania europeia". 

 

António Barreto, Público, 21 de Julho de 2019

A ANÁLISE...

 

Em política, há qualidades que não existem porque não podem existir. O que quer dizer que quando se refere a falta dessas qualidades, como se fosse possível que elas existissem, não se está no campo da realidade efectiva das coisas (que é o campo da política) para se estar no campo das impossibilidades (da utopia ou da demagogia). A União Europeia não é uma democracia e não tem na sua base fundadora uma cidadania europeia. Em contrapartida disso que não pode ser, a União Europeia é uma escala - e esta é a diferença estratégica crucial, porque é por isso que a União Europeia é o que as nações e os Estados da Europa não podem ser.

 

A União Europeia é a resposta possível para o que foi o fim dos impérios europeus, que resultou da tentativa falhada de a Alemanha e o Japão construírem a escala imperial que não tinham, abrindo o campo de possibilidades à consolidação dos impérios americano e soviético. Nestas circunstâncias, a meio do século XX, a condição para que fosse possível formular e concretizar estratégias e políticas na escala em que operavam os novos impérios americano e soviético era a criação de uma plataforma institucional que permitisse a concepção e execução de políticas comuns aos Estados europeus que fossem membros dessa plataforma institucional. Antes de ser uma questão de democracia e de cidadania, que são de âmbito nacional, é uma questão de interesses comuns que só se podem realizar em comunidade, onde a condição fundamental é saber interiorizar o exterior, isto é, traduzir nas escolhas nacionais aquilo que se revelar necessário na escala da União. 

 

Como se viu com o Império Romano, os imperadores loucos anunciam o fim do império. Agora que os americanos (depois dos soviéticos) desmantelam a rede de alianças que lhes permitiu estruturar a sua hegemonia imperial e os Estados europeus não podem reconstituir os seus impérios do passado, só poderão responder às turbulências da desordem mundial se tiverem uma plataforma institucional para formular políticas comuns na escala que nenhum, isoladamente, poderá atingir. 

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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