Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 28 de outubro de 2019 às 19:17

O Governo do centro

Quando agora se fecha o círculo, o PS volta a escolher a posição do centro, mas fica limitado a gerir equilíbrios internos em regime de rendimentos decrescentes, sem um desígnio de modernização e sem uma vontade crítica de rever os erros do passado e de propor uma nova estratégia.

A FRASE...

 

"O segredo da legitimidade do exercício deste Governo residirá na escolha, na hierarquização, na concentração e na clareza das respostas que entender ser possível dar." 

 

Marcelo Rebelo de Sousa, Público, 27 de Outubro de 2019

 

A ANÁLISE...

 

Governo minoritário do PS de António Costa fecha o círculo aberto pelo governo minoritário do PS de Mário Soares em 1976. Vai agora ser possível fazer a avaliação integrada do que se iniciou com uma economia estagnada (depois da descolonização, das nacionalizações e dos défices orçamentais e de balança de pagamentos) e uma sociedade instável e dividida (que não resolvia o confronto entre as reivindicações distributivas e as necessidades de acumulação de capital para financiar o desenvolvimento e sustentar o crescimento na economia) e chegou agora a uma economia estagnada (sem crescimento na economia e na produtividade, sem centros internos de acumulação de capital e dependente da atracção de capitais externos) e uma sociedade sem potencial demográfico (onde o envelhecimento ameaça o crescimento económico futuro e os dispositivos de políticas sociais dependentes do financiamento do Estado, o que equivale a dizer que dependem da circulação distributiva de rendimentos de uns grupos sociais para outros, que é intermediada pelas decisões tomadas nos órgãos do Estado). Partiu-se de um regime de rendimentos decrescentes e chegou-se a um regime de rendimentos decrescentes - e a diferença entre épocas regista-se na dívida acumulada, sempre crescente desde 1995, e na divergência com a Europa, visível também desde 1995.

 

No início deste círculo, o PS escolheu a posição do centro, para equilibrar as tensões entre esquerda e direita. Mas o centro, dependente do que for a direita e a esquerda, não existe como posição de poder, é o que a direita e a esquerda lhe permitir que seja. Quando agora se fecha o círculo, o PS volta a escolher a posição do centro, mas fica limitado a gerir equilíbrios internos em regime de rendimentos decrescentes, sem um desígnio de modernização e sem uma vontade crítica de rever os erros do passado e de propor uma nova estratégia.

 

O Governo do centro vai provar que a questão não está (nunca esteve) em equilibrar esquerda e direita, mas sim em sair da estagnação interna para procurar no exterior os objectivos, os meios e as oportunidades para modernizar, desenvolver e crescer.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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