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Joaquim Aguiar 19 de Maio de 2020 às 09:20

O passado sem futuro

O nacionalismo ficou no passado que caiu na descontinuidade. Sem a escala comunitária europeia e sem as instituições monetárias e fiscais de uma área de moeda comum, nenhum Estado europeu terá meios para absorver o nível de dívida que teve de contrair.

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A FRASE...

 

"Para o futuro, o Tribunal Constitucional alemão deixa uma bomba." 

 

Ricardo Reis, Expresso, 16 de Maio de 2020

 

A ANÁLISE...

 

Já ninguém terá a ilusão de que seja possível reconstituir as condições do passado depois da crise de descontinuidade que foi desencadeada pela pandemia de 2020. A intensidade desta crise (depois de um período longo de congelamento das actividades e fluxos económicos), a sua extensão temporal (não se pode estabelecer qual será a sua duração) e a sua amplitude geográfica (manifesta-se em todas as regiões, o que significa que nenhuma tem um padrão de equilíbrio que possa servir de modelo para as outras e que nenhuma tem potência suficiente para servir de base de arranque para a posterior recuperação) não permitem que esse passado tenha futuro depois desta descontinuidade.

 

Quem estiver no futuro que existirá depois de resolvida a crise sanitária e restabelecidos os fluxos nas economias terá como tarefa imediata receber a herança que esse passado depositou nesse futuro. Uma crise de descontinuidade faz desaparecer o passado, no sentido em que já não será possível continuá-lo, mas não é uma amnistia (importa não esquecer quem foram os que precipitaram o passado no abismo da descontinuidade e quais foram os modelos que usaram) e muito menos será um jubileu de perdão de dívidas (pelo contrário, depois da descontinuidade, o futuro terá como programa único a transformação da dívida em capital). É para esse programa único, que é exigido pela herança que o passado deixou, que tem de se perguntar qual é a escala necessária para estabelecer as estratégias que permitem transformar a dívida em capital.

O nacionalismo ficou no passado que caiu na descontinuidade. Sem a escala comunitária europeia e sem as instituições monetárias e fiscais de uma área de moeda comum, nenhum Estado europeu terá meios para absorver o nível de dívida que teve de contrair quando todos caíram na descontinuidade onde ficou o passado. Foi isto que os juízes do nacionalismo constitucionalista germânico não souberam enquadrar num regime de proporcionalidade entre o que é passado e o que é futuro, entre o que é nacional e o que é comunitário: o nacionalismo só tem base de sustentação se assumir a sua subordinação voluntária às instituições de escala comunitária.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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