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Joaquim Aguiar 16 de Dezembro de 2019 às 20:10

O possível e o necessário

Em política, o confronto com realidade exige o reconhecimento das mudanças das circunstâncias, e isso implica aceitar e vencer o confronto com os que, por fixação na memória ou por recearem perder posição no processo de mudança, recusam reconhecer que as circunstâncias mudaram.

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A FRASE...

 

"Costa quis deitar para o lixo consenso obtido pelo líder do Eurogrupo para criar orçamento na zona euro. Centeno ganha primeiro round."

Expresso, 14 de Dezembro 2019

A ANÁLISE...

 

A política é a arte do possível, e o talento do político está na sua capacidade para identificar a realidade efectiva das coisas. A qualidade do político avalia-se no modo como traduz, tanto para os seus apoiantes como para os seus opositores, a linha da necessidade, para que os apoiantes não se afastem do campo das possibilidades e para que os opositores sejam forçados a reconhecer que não podem escapar à força gravitacional da necessidade. Na estratégia eleitoral, o possível é o que conquistar votos. Mas em termos de governação, o possível é o que respeita a necessidade - há quem ganhe eleições para começar a perder o que ganhou logo que governa. Há vitórias que são apenas o prefácio da derrota.

 

Em política, o confronto com realidade exige o reconhecimento das mudanças das circunstâncias, e isso implica aceitar e vencer o confronto com os que, por fixação na memória ou por recearem perder posição no processo de mudança, recusam reconhecer que as circunstâncias mudaram. Esta é a origem da dificuldade que têm hoje os nacionalistas na Europa, que recusam reconhecer que acabou o tempo dos impérios europeus e que a independência nacional é, hoje e no futuro, a gestão política e estratégica das interdependências. Primeiro no espaço europeu (para criar escala, nos mercados e nos capitais, mas também poder político e militar), depois no espaço mundial (para demonstrar competitividade na globalização). Procuram resolver essa dificuldade recorrendo ao populismo, liderando as massas populares, fixadas nos horizontes do passado, contra as elites globalistas, porque estas lhes anunciam e revelam que esse passado já não existe e que a independência já só pode ser garantida por plataformas de cooperação multinacionais.

 

Quando, no Conselho Europeu, Costa e Centeno divergiram, o que se viu foi o confronto entre as circunstâncias do nacionalismo, soberano e unilateral, e as circunstâncias das interdependências, que definem o possível em função da necessidade da convergência multilateral. É óbvio quem ganha, mesmo que seja afastado das suas funções.

 

Artigo está em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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