Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 29 de outubro de 2013 às 00:01

O que parece não é o que parece

Os défices e a dívida persistentes que conduzem a uma crise extrema não se corrigem por cortes e contracções: reaparecem no momento seguinte, porque as fontes da dívida e dos défices continuam activas.

A FRASE...

 

"O bloqueio político é o maior problema que Portugal hoje conhece, maior do que o défice e a dívida."

José Pacheco Pereira, ‘Por favor, tirem-me daqui’, Público, 26 de Outubro de 2013.

 

A ANÁLISE...

 

As questões mais interessantes em política são as que tratam os paradoxos de decisões que, depois de se inter-relacionarem com a economia, com a sociedade e com os factores e forças externas, produzem resultados muito diferentes do que eram as intenções iniciais dos políticos e dos eleitores que os escolhem. É o que acontece quando se alteram as circunstâncias (equilíbrios demográficos, perda de potencial de crescimento, perda do poder de emitir moeda, perda dos reguladores tradicionais como a taxa de juro e taxa de câmbio). O talento do dirigente político avalia-se pela sua capacidade para antecipar estes efeitos perversos e neutralizá-los ou compensá-los.

Os défices e a dívida persistentes que conduzem a uma crise extrema não se corrigem por cortes e contracções: reaparecem no momento seguinte, porque as fontes da dívida e dos défices continuam activas. Quando o modo de financiamento das políticas públicas evoluiu da Previdência (cálculo actuarial da aplicação de juros compostos a um capital que se acumulou) para a Providência (que é do domínio do divino, mas que os humanos pretendem imitar através da distribuição de rendimentos de uns grupos sociais para outros ou de credores para devedores), rapidamente se chega ao paradoxo perverso de tornar a sociedade e a economia escravos da dívida que as decisões políticas produziram, porque foram as decisões dos políticos, com o apoio dos seus eleitores, que instalaram esses dispositivos de políticas públicas.

Substituir uns políticos por outros (remover o bloqueio político) não servirá para nada se não forem alterados os dispositivos de políticas públicas que são as fontes dos défices e da dívida.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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