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Opinião
Joaquim Aguiar 21 de Março de 2018 às 19:48

O regresso do eleitorado

O jogo já não se disputa apenas entre chefes de partidos, passou a incluir os movimentos e as variações de preferências dos eleitores.

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A FRASE...

 

"O melhor ensinamento da tradição política ocidental é este: a democracia não é a ditadura da maioria. Não o esqueçamos nunca."

 

Paulo Rangel, Público, 20 de Março de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Em épocas de estabilidade política e de crescimento económico, são os partidos e os protagonistas que os dirigem quem determina o que é o horizonte estratégico e quem conduz as sociedades para a realização dos objectivos escolhidos dentro desse campo de possibilidades. São épocas em que a descrição dos acontecimentos e a análise política se concentram na avaliação do que podem ser os movimentos de peças de xadrez num tabuleiro (partidos com os seus eleitores), podendo prever-se quem está em condições de ganhar e quem está condenado a perder - pelo menos até que estes mudem o seu estilo de jogo e surpreendam os que estavam em condições de ganhar.

 

Em épocas de crise económica, aumenta o risco de instabilidade política, os comportamentos eleitorais perdem a sua regularidade, mas também se abre um campo de oportunidade para os dirigentes políticos que saibam comandar o processo de mudança e respondam às incertezas e ansiedades dos eleitores propondo-lhes um novo horizonte estratégico - mas este só será um factor de resposta eficaz à crise económica se conseguir atrair um número suficiente de eleitores. O jogo já não se disputa apenas entre chefes de partidos, passou a incluir os movimentos e as variações de preferências dos eleitores. Já não é um jogo de xadrez, em que as peças vão sendo retiradas do tabuleiro até haver só um vencedor, passou a ser o jogo chinês do go, com peças pretas e brancas (os eleitores, que os partidos têm de acompanhar), que mudam de cor quando são cercadas por peças da outra cor. No fim do jogo, estão no tabuleiro as mesmas peças que estavam no início, mas mudaram as suas cores.

 

Na actual época de crise, em que o horizonte estratégico mudou por razões tecnológicas, por razões demográficas e pelos fluxos da globalização, os eleitorados estão a produzir campos políticos e sociais divididos, em partes tão iguais que nenhuma tem legitimidade suficiente para conduzir a resposta à crise. Não se debatem ideias e projectos ou horizontes estratégicos. Cercam-se os eleitores com informações e promessas falsas para os fazer mudar de cor. E quando se obtém uma pequena maioria, usa-se essa plataforma para impor a ditadura dessa maioria. O eleitorado regressou ao primeiro plano da política, mas não saberá encontrar a resposta para a crise que o faz mudar de cor.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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