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Joaquim Aguiar 04 de Setembro de 2017 às 21:12

O tempo e os mapas

Os mapas para o futuro têm caminhos e estradas que já não estão contidos na escala nacional, não estão delimitados por fronteiras, precisam da escala global para chegarem aos mercados onde possam ser colocados os produtos que a capacidade instalada permite fabricar.

A FRASE...

 

"Em Palmela como em Paris, a greve necessária é a que mostra que a ameaça só pode ser contrariada pela decisão democrática de quem trabalha."

Francisco Louçã, Público, 2 de Setembro de 2017.

 

A ANÁLISE...

 

É imprudente iniciar uma viagem usando mapas antigos, que já estão desactualizados pela passagem do tempo e pelas obras que, entretanto, foram feitas, abrindo novas vias e encerrando ou desviando outras. O mapa nunca é o território, mas um mapa desactualizado só serve para viagens na memória, por um tempo e por um território que já não existem.

 

Qual é a ameaça que é preciso contrariar? Trabalhar ao sábado para poder cumprir um objectivo de produção anual, que permite consolidar a actividade da empresa em Portugal num período em que a indústria automóvel está a entrar numa fase de profundas transformações, que aumenta os postos de trabalho, que reforça as ligações com as empresas fornecedoras e que permite aceder ao estatuto de empresa competitiva para o futuro desta indústria. A ameaça não é a imposição de trabalhar ao sábado, mas sim a perda de relevância da empresa no sector automóvel mundial – e então não trabalhar ao sábado acabará por implicar também não trabalhar aos outros dias da semana.

 

O que é a decisão democrática de quem trabalha? A decisão democrática é um exercício colectivo de liberdade, mas não é uma magia que transforma a realidade, pela qual a expressão da vontade passaria a implicar a realização do desejo. Pelo contrário, a decisão só é democrática quando conhece e reconhece a realidade, sem o que seria a escolha de uma estrada que poderá já ter existido, mas que, agora depois das obras feitas e das mudanças ocorridas, conduz a um abismo.

 

Os mapas para o futuro têm caminhos e estradas que já não estão contidos na escala nacional, não estão delimitados por fronteiras, precisam da escala global para chegarem aos mercados onde possam ser colocados os produtos que a capacidade instalada permite fabricar. A ameaça real que é preciso contrariar é a da expulsão da escala global, pelo que a decisão democrática de quem trabalha deverá ser a de aproveitar a oportunidade de mercado que reforce a relevância do posto de trabalho e da empresa.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

 

maovisivel@gmail.com

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