Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 28 de abril de 2014 às 21:10

Os paradoxos do inconsciente

Se não se rejeitar o que produziu a crise, esta será cada vez mais grave, até que a força do absurdo entregue ao acaso a resolução da crise.

 

A FRASE...

"Há um único fio condutor de todas estas manifestações e é inequívoco: são protestos contra o Governo e o Presidente da República, são protestos contra a situação."

 

José Pacheco Pereira, "O que cheirou a bafio no 25 de Abril", Público, 26 de Abril de 2014.

 

A ANÁLISE...

 

A dívida não foi um dilúvio que se abateu sobre Portugal, sem aviso e sem razão. A dívida é o resultado de erros e de excessos - erros na interpretação da mudança do campo de possibilidades, excessos nos dispositivos das políticas distributivas que atribuíram direitos e promoveram níveis de consumo que eram financiados pela emissão de dívida, depois de ter desaparecido o poder de emitir moeda e de desvalorizar o câmbio.

 

Mudou o campo de possibilidades, quando se trocou a estrutura imperial pela estrutura da integração europeia, sendo certo que a estrutura nacionalista que serviu de transição também não foi viável. Mudaram os instrumentos da política, quando se trocou o proteccionismo e o controlo administrativo da mobilidade dos factores pela liberdade de circulação e pela competitividade.

 

É natural que se multipliquem os protestos contra a situação. Mas se não se rejeitar o que produziu a crise, esta será cada vez mais grave, até que a força do absurdo entregue ao acaso a resolução da crise. A origem da situação está no sistema político, onde os candidatos seduzem os eleitores com as promessas que lhes apresentam e os eleitores se deixam iludir acreditando que essas promessas são realistas e realizáveis.

 

Quem protesta contra a situação não protesta contra o presente, está a protestar contra o passado (mesmo que não tenha consciência disso). Os que protestam contra a situação estão, de facto, a protestar contra os candidatos (que seduziram pela ilusão) e contra os eleitores (que se deixaram seduzir pela ilusão).      

                             

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com                                   

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