Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 05 de janeiro de 2016 às 00:01

Política e realidade efectiva das coisas

É a perversão da política que projecta sombras a coberto das quais se abandonam promessas e programas para se aceitar a resignação aos factos consumados.

A FRASE...

 

"A política é cruel. Nunca se dá o que se promete. Nunca se faz o que se quer."

 

António Barreto, Diário de Notícias, 3 de Janeiro de 2016

 

A ANÁLISE...

 

A política não é cruel. A política é o trabalho da sociedade com a realidade efectiva das coisas, e esta não é cruel nem deixa de ser, é o que é. Cruel é a retórica da promessa que não pode ser cumprida ou a fantasia do programa que não pode ser realizado, mas isso não tem nada a ver com a política como acção dentro do campo de possibilidades. Pelo contrário, é a perversão da política que projecta sombras a coberto das quais se abandonam promessas e programas para se aceitar a resignação aos factos consumados. Em lugar de se ficar a olhar para as sombras, será mais útil procurar o corpo que produz essas sombras.

 

O regime democrático português teve narrativas fundadoras que estabeleceram as primeiras retóricas da promessa. A narrativa heróica militar e a narrativa revolucionária popular tiveram no Programa Povo-MFA e, depois, na institucionalização do Conselho da Revolução, os seus vectores operacionais. Ao mesmo tempo, a narrativa democrática legitimista e a narrativa estratégica da integração europeia eram os contrapontos que usavam as eleições de Abril de 1975 como o vector operacional para a configuração do espaço político. Quatro décadas depois, o regime que nasceu da descontinuidade histórica constituída pelo fim do Império encontra a descontinuidade histórica do endividamento e da falta de escala da economia e da sociedade portuguesas para corrigir e superar os desequilíbrios que acumulou.

 

O corpo que projecta as sombras é constituído por todos os que se servem da retórica da promessa para satisfazerem interesses particulares (os dos seus apoiantes e os seus) ou para esconderem as responsabilidades dos que decidiram as políticas que geraram a impossibilidade. A política não se ensina nem se aprende, é uma vocação, não é um serviço a soldo.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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