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Joaquim Aguiar 13 de Maio de 2020 às 16:47

Prioridade à política

Depois da descontinuidade, o possível será estabelecido em função dos instrumentos e dos recursos. A dívida acumulada exige o instrumento Banco Central Europeu, porque só ele pode converter as dívidas nacionais em dívida perpétua da Zona Euro.

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A FRASE... 

 

"Depois de se salvar vidas e de se tentar recuperar parte da economia, chegará o cobrador sem fraque. A dívida baterá à porta, com uma ceifeira-debulhadora por detrás." 

 

Fernando Sobral, Público, 10 de Maio De 2020

A ANÁLISE...


O critério geral para identificar uma crise de descontinuidade é a impossibilidade de ligar o passado com o futuro. Há descontinuidade quando foram quebradas as métricas em que se baseavam os modelos configuradores das políticas que pretendiam corrigir os desequilíbrios, para que estes não se amplificassem até chegarem à impossibilidade que provoca a descontinuidade. Depois disso, as políticas do passado já não têm efeitos úteis para controlar os desequilíbrios do presente.

Esta descontinuidade foi desencadeada por um fenómeno natural, mas que incidiu em sistemas nos quais as esferas política, económica e social já estavam a operar longe do equilíbrio e na vizinhança de um contexto de desordem generalizada, com polarizações políticas e sociais extremadas e com a degradação da credibilidade e da autoridade das instituições de regulação internacional. As economias foram congeladas, bloqueando-se os fluxos económicos para controlar os fluxos de contágio – mas com a consequência de uma crise de desemprego só comparável com 1929, com a dissolução do capital existente pela dívida contraída quando não há receitas e com a demonstração de que o Estado não é resposta para a interrupção do funcionamento dos mercados. As sociedades foram paralisadas, incapazes de escolher entre a bolsa e a vida – e o mais provável é ficarem sem a bolsa e com uma má vida, náufragos sem mapa e sem bússola, que não sabem para onde vão nem onde estão. Resta a esfera política, aquela que tem a responsabilidade de definir o que é possível ainda que não haja mapa nem bússola.

Depois da descontinuidade, o possível será estabelecido em função dos instrumentos e dos recursos. A dívida acumulada exige o instrumento Banco Central Europeu, porque só ele pode converter as dívidas nacionais em dívida perpétua da Zona Euro. Para que a Zona Euro se liberte da ameaça dos juízes vermelhos do Tribunal Constitucional alemão, é preciso que haja um imposto europeu que ofereça recursos próprios à Comissão Europeia para um Orçamento Comum. Se em democracia não há tributação sem representação, numa união não pode haver representação sem tributação. Os que seguirem a linha do possível encontram o futuro.

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com





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