Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 30 de março de 2017 às 00:01

Santos de devoção

Por maior que seja a devoção aos santos anunciados, ela não substitui o exame da realidade efectiva das coisas. O tempo do Estado nacional, que protege os mercados internos e tem uma moeda própria já acabou.

"Macron e Schulz, uma dupla para a Europa. O cansaço com o sistema, acicatado pela febre populista, criou uma apetência por alternativas refrescantes e inovadoras às políticas do costume."

 

Vicente Jorge Silva, Público, 26 de Março de 2017

 

A longa duração, a complexidade e o potencial de destruição da crise multifacetada que persiste desde 2008 podem desculpar a frequência com que se investem esperanças e devoções em protagonistas que se apresentam como portadores de soluções mágicas. Já se confiou em Obama para a resolução da crise, mas este conduziu a Trump - e este avança para o abismo. Houve quem fizesse a sua aposta em Hollande, mas agora investem em Macron para não terem Marine Le Pen. Angela Merkel teve a oportunidade de ser o eixo estruturante de uma União Europeia estrategicamente afirmativa, mas agora preferem Schulz a liderar a mesma coligação com que Merkel tem estado a operar.

 

O que continua por reconhecer é que a crise, por ter aparecido, revelou que o passado não foi o que parecia ser. Havia desequilíbrios em acumulação que não foram resolvidos, apenas foram escondidos ou mascarados para se poder manter a ilusão de que se avançava em direcção ao progresso prometido. E essa mesma crise, pela sua duração e complexidade, já destruiu relações estruturais, valores dos activos e linhas estratégicas estabelecidas. Deixaram de existir as condições de possibilidade em que foram formadas as previsões e expectativas que ainda se pretende defender, quando as condições de possibilidade já são outras e muito diferentes das que foram apresentadas e formuladas no passado.

 

Por maior que seja a devoção aos santos anunciados, ela não substitui o exame da realidade efectiva das coisas. O tempo do Estado nacional, que protege os mercados internos e tem uma moeda própria já acabou, porque não tem escala depois do fim dos impérios coloniais, nem condições competitivas depois das cadeias de produção de escala global. Na Europa, ou há União e estratégia comum, ou há fragmentação e distribuição da miséria depois da distribuição da dívida.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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