Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 27 de maio de 2019 às 19:16

Tempos de fim

Onde alguns imaginam "directórios de grandes potências" há, realmente, a impossibilidade do nacionalismo a tentar destruir as instituições da integração. É um passado sem futuro.

A FRASE...

 

"Naquilo que conta para determinar o rumo do país já se puseram de acordo e ajoelharam perante o directório de grandes potências."

 

Jerónimo de Sousa, Expresso, 26 de Maio de 2019

 

A ANÁLISE...

 

O fim de uma época não tem de ser o efeito de acontecimentos extraordinários ou de acções que tenham como objectivo interromper a evolução na continuidade das instituições que foram criadas dentro da estrutura de ordem mundial que caracterizou essa época. Uma época chega ao fim quando deixa de saber como produzir o seu futuro.

 

É por iniciativa dos Estados Unidos que está a ser desmantelada a estrutura de ordem multilateral que eles próprios construíram e fundamentaram, de que foram os principais beneficiários. Foi esse multilateralismo que possibilitou às sociedades que estavam dentro da área de influência norte-americana, depois da Segunda Guerra Mundial, estruturar sistemas políticos democráticos e pluralistas, na base dos quais foi possível resolver as conflitualidades internas e prosseguir uma rota de modernização e desenvolvimento, ao mesmo tempo que criou as condições para estabelecer redes de alianças com poder conjunto suficiente para garantir esse padrão de ordem mundial quando ameaçado por centros de poder hostis.

 

Quando os Estados Unidos escolhem voltar para o isolacionismo das tarifas alfandegárias, renunciam ao seu estatuto de centro hegemónico que estruturava uma ordem multilateral, encerram uma época e iniciam um novo tempo de desordem, em que se irá desenvolver a competição pela conquista do futuro centro de hegemonia mundial.

 

As primeiras consequências desta nova desordem mundial aparecem na Europa, fragmentada pelo unilateralismo do nacional-populismo que tem vindo a ser promovido simultaneamente pelos Estados Unidos e pela Rússia. As eleições europeias, que foram sempre consideradas eleições de segunda ordem, no sentido em que eram subordinadas aos sistemas partidários nacionais, revelaram, em 2019, a impossibilidade radical que existe entre nacionalismo e integracionismo, mas também revelaram como é fácil e rápido destruir sistemas partidários, mesmo tão antigos como o britânico ou tão consensuais como o alemão.

 

Onde alguns imaginam "directórios de grandes potências" há, realmente, a impossibilidade do nacionalismo a tentar destruir as instituições da integração. É um passado sem futuro.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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