Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 26 de abril de 2016 às 00:01

Verdade e realidade

O que a verdade efectiva das coisas mostra hoje em Portugal é uma extraordinária acumulação de fracassos e de impossibilidades, que só podem ter acontecido porque as entidades de racionalização, aquelas que têm a responsabilidade de distinguir o possível do impossível, violaram os seus deveres.

A FRASE...

 

"A nova ordem europeia não se compadece com conversa mole e habilidade negocial. (…) O tempo é outro: regras estritas, quase automatismo nos procedimentos, e muita exigência."

 

João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 18 de Abril de 2016

 

A ANÁLISE...

 

Diz-se que o Dr. Salazar, no dia seguinte à eleição de Américo Tomás em 1958, mostrou a um visitante um maço de folhas dizendo "aqui estão os resultados da eleição", voltou a guardar os papéis e, abrindo outra gaveta, mostrou um maço de folhas de volume idêntico, dizendo "e aqui estão os resultados com que vamos trabalhar". Ilustrava, mesmo sem o saber, a distinção entre a "verdade efectiva das coisas" (de Nicolau Maquiavel, o que as coisas são e não o que imaginamos que sejam) e a "realidade efectiva das coisas" (de Antonio Gramsci, uma relação de forças em contínuo movimento em direcção ao que as coisas devem ser). O Dr. Salazar fez uma demonstração de poder ao substituir um maço de folhas por outro. Mas condenou-se a não actuar sobre a verdade efectiva das coisas, que escondeu apesar de saber. Em troca, deixou-se arrastar pela realidade efectiva das coisas, cuja relação de forças o conduziu para a derrota.

 

O que a verdade efectiva das coisas mostra hoje em Portugal é uma extraordinária acumulação de fracassos e de impossibilidades, que só podem ter acontecido porque as entidades de racionalização, aquelas que têm a responsabilidade de distinguir o possível do impossível, violaram os seus deveres (de regulação) e não cumpriram as suas obrigações (de só prometerem o que sabiam poder cumprir). Preferiram a demagogia à democracia e serviram-se do dinheiro dos outros (impostos para o Estado e depósitos para os bancos) para imaginarem uma riqueza que nunca existiu.

 

Agora, é preciso começar de novo, assumindo a necessidade da escala europeia e interiorizando a disciplina da moeda comum. Tudo o que não for isto será a sujeição à realidade efectiva das coisas, quaisquer que sejam as imposições feitas na escala nacional, pelo exercício do poder local que é próprio do regedor.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

pub

Marketing Automation certified by E-GOI