Paulo Carmona
Paulo Carmona 11 de novembro de 2019 às 20:00

A insustentabilidade ideológica

Há duas coisas em que acredito plenamente, que Portugal tem condições para ser um país fantástico e que a gravidade é uma lei. E será a insustentabilidade de certas políticas, em choque com a realidade e com o “como se faz”, e “quanto custa”, que fará de Portugal um país melhor e mais justo.

A FRASE...

 

"(…) É preciso fazer um caminho para a dedicação plena e para a exclusividade ao SNS com carreiras mais atraentes e com condições de trabalho."

Catarina Martins, Sol, 5 de novembro de 2019

 

A ANÁLISE...

 

Há duas coisas em que acredito plenamente, que Portugal tem condições para ser um país fantástico e que a gravidade é uma lei. E será a insustentabilidade de certas políticas, em choque com a realidade e com o "como se faz", e "quanto custa", que fará de Portugal um país melhor e mais justo. E muito provavelmente será no SNS que o regime irá mudar, quando entender que para melhorar a prestação de serviços de saúde universais é necessário mudar, e muito.

 

Se o SNS fosse perfeito, não haveria a necessidade de seguros de saúde ou ADSE. Esses dois existirem significa que o sistema é incompleto ou, pior, que há saúde de primeira para quem paga seguros de saúde e de segunda para quem não tem dinheiro. E todos os anos existirem mais pessoas dispostas a pagarem para cobrirem falhas do SNS, já vamos em 2,5 milhões, é uma certeza ou receio dessas falhas. Uma coisa é opinião, outra diferente é atravessar a carteira.

 

Com mais seguros de saúde vêm mais hospitais privados, que atraem médicos portugueses do SNS, em concorrência com, por exemplo, o Qatar, que acena com 12 mil euros/mês. Entre emigração e privados, os médicos e enfermeiros terão tendência a sair do SNS, no qual cada vez serão menos, com menores condições de trabalho, a fazer 45 horas no novo horário de 35, uns heróis. Como se poderão dar carreiras mais atraentes e com melhores condições de trabalho? Fácil, pagar o suficiente para não se sentirem tentados a sair, ou seja, o dobro. Só assim conseguiremos ter os pediatras ou urgências de pediatria necessárias. Enquanto isso, a Ordem dos Médicos reprova novos cursos de Medicina…

 

O problema da gravidade é o financiamento. Como pagar mais a uns e não a outros. Os juízes foram aumentados, os médicos terão de ser e bem, e os professores? E a sustentabilidade do SNS, em que faltam materiais, já hoje sem dinheiro para salários? Esta defesa do SNS por condições de trabalho conduzirá ao descontrolo das contas. Não o fazer conduz à sua inoperacionalidade por desertificação de técnicos. Os privados aproveitam e os pobres sem saúde. Defender o atual SNS é matá-lo.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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