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Paulo Carmona 19 de Abril de 2021 às 19:15

A pobreza base e as médias ricas

É sempre a mesma conversa de país que se acha rico, a comparar-se com as médias europeias, sem olhar para a pobreza e salários de miséria dos portugueses. Essa é que deveria ser a preocupação de todos os bem-pensantes. Não é.

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A FRASE...

 

"Mais IRS e mais IRC... e não só. Portugal só sai da crise com mais impostos."

 

Luís Aguiar-Conraria, RR, 22 de março de 2021 

 

A ANÁLISE...

 

Mais uma crise, mais um aumento de impostos, mais empobrecimento. Tem sido esse o caminho e consequência das várias troikas internas, externas e académicas. Ora por uma questão de equilíbrio das contas públicas, ora para penalizar ou favorecer comportamentos ou, neste caso, porque muitos ganharam na crise e outros empobreceram. Tudo impostos extraordinários que se tornaram ordinários com o passar do tempo. Verifiquemos se o brutal aumento de impostos, o da troika e de Vítor Gaspar, que, pelas suas declarações recentes, até gosta, limitado no tempo e em pura aflição foi revertido por António Costa. Não, pois não.

 

E depois vem a conversa que Portugal até pode subir mais impostos, pois temos folga por estarmos bem abaixo da média europeia. E é bem verdade. Estamos exatamente na 14.ª posição na carga fiscal sobre o PIB (Eurostat, 2019), com 36,8% ainda longe dos 41,6% de média. Apenas existe aqui um pormenor que destrói as estatísticas, as tais que dizem que se uma pessoa estiver com a cabeça no forno aceso e os pés num balde de gelo, em média estará com uma temperatura amena…Segundo o mesmo Eurostat, o salário médio por hora em Portugal é 37% da média da Zona Euro, 5,37€/hora comparados com 14,51€/h. Para nossa vergonha e dos vários governos que foram passando, dos quais 19 em 25 anos eram inspirados em modelos socialistas de distribuição, somos o 20.º país com o salário/hora mais baixo (Eurostat, 2019), ou o 26.º se incluirmos o custo de vida, o chamado PPC - Paridade de Poder de Compra. Ou seja, em termos de salário médio e juntando o custo de vida, o único país pior do que nós em salários é a Bulgária.

 

Referir que estamos abaixo da média dos impostos, diretos e indiretos, tem de contar com o fundo da tabela, na pobreza onde nos encontramos. Um europeu médio pagar 40% sobre 14,51€, ainda lhe sobra 8,7€, vá lá. Para um português pagar 35% sobra 3,49€. Para os mesmos 40% fica com 3,22€. Nem é comparável em esforço. Para um pobre todos os cêntimos contam na fuga à miséria…

É sempre a mesma conversa de país que se acha rico, a comparar-se com as médias europeias, sem olhar para a pobreza e salários de miséria dos portugueses. Essa é que deveria ser a preocupação de todos os bem-pensantes. Não é.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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