Paulo Carmona
Paulo Carmona 13 de março de 2019 às 21:50

Não resolve, rebenta

Quando se vende uma coisa feia, os compradores não são assim bonitinhos. Viu-se na TAP, sem nenhuma companhia europeia, e agora no Novo Banco. Esta solução custou muitos milhares de milhões aos contribuintes ou dos clientes bancários, via Fundo de Resolução.

A FRASE...

 

"Ficámos com um banco mau e um banco péssimo."

 

António Costa, Sábado, 6 de março de 2019

 

A ANÁLISE...

 

O episódio BES/Novo Banco ilustra a forma como o Estado, resolve/não resolve os problemas. Primeiro opta-se por ignorar o problema, fazer de conta e esperar que se resolva por si, com uns paliativos suaves. Depois o problema rebenta, e com a "surpresa" toma-se uma solução precipitada com um custo muito maior tivesse sido o problema enfrentado e assumido.

 

Lembramo-nos todos da questão colonial. Ou não existia ou era inconstitucional dentro do eixo Minho - Timor. Ignorámos até não poder mais, alimentou uma revolução e o problema foi resolvido duma forma brutal e descuidada.

 

Mais recentemente a questão da dívida e das finanças públicas foi e tem sido ignorada. Desde os discursos do pântano e da tanga, até ao despesismo dos anos socráticos, ainda os atuais governantes acreditavam que a despesa pública gerava crescimento e receitas fiscais. O Estado rebentou, veio a troika, cirurgia penosa à pressa, mas o problema está lá, apesar do garrote imposto por este Governo que o tem adiado e escondido as necroses.

 

A questão do BES entra nesta regra. Ninguém quis assumir o problema que se avolumava todos os anos. A troika e o Banco de Portugal fechavam os olhos, o Governo não queria que nada estragasse a saída limpa, para se livrarem da imposição externa, e o resultado está à vista. Todos sabiam e todos assobiaram para o ar. As más noticias vinham de Miami, do Brasil, de Angola, de Lausanne. Pedro Queiroz Pereira entregava dossiês completos ao Banco de Portugal e todos disfarçavam… até que rebentou. Passos Coelho recusou colocar fundos públicos da Caixa, resolução à pressa, uma experimentação que o BCE nunca mais repetiu, e uma divisão discricionária num banco mau e num banco péssimo. Muitos anos e muitas "fees" depois lá se conseguiu vender o banco. Quando se vende uma coisa feia, os compradores não são assim bonitinhos. Viu-se na TAP, sem nenhuma companhia europeia, e agora no Novo Banco. Esta solução custou muitos milhares de milhões aos contribuintes ou dos clientes bancários, via Fundo de Resolução. E qual a alternativa? Deixar cair o Banco? Essa é a discussão que deveríamos estar a ter. Culpas? Todos têm.

 

São demasiados episódios de esconder o problema, assobiar, este rebentar e resolver-se mal e à pressa. E continuamos. Não aprendemos já?

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

pub

Marketing Automation certified by E-GOI