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Paulo Carmona 15 de Junho de 2020 às 20:00

O dilema do alcoolismo

Temos uma economia muito fraca e uns salários miseráveis, os segundos mais baixos da Zona Euro, apenas atrás da Letónia, e muito do excelente desenvolvimento social é baseado em dívida.

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A FRASE...

 

 "Marcelo elogia Governo e diz que estrangeiros falam em ‘milagre português’." 

 

Diário de Notícias, 16 de abril de 2020

A ANÁLISE...

 

Há uma tese muito divulgada, e bastante aplicada, que um alcoólico só se consegue tratar se aceitar que é alcoólico. Peça-chave dos encontros dos AA onde os participantes contam a sua história e afirmam com orgulho, quando o podem fazer, estou sóbrio há X dias.

 

Substituamos álcool por dívida e temos um retrato de Portugal desde a adesão do euro, onde a dívida, em valores absolutos, tem sido um vício e não pára de crescer. E o nosso empobrecimento relativo, no ranking dos mais pobres do euro, também não. Entretanto os responsáveis políticos não se cansam de referir que nós somos os maiores, muito bem geridos, país de referência para o mundo, etc... Claro que fica muito bem, é popular para quem o diz, rende votos dizer que somos lindos, e levanta a moral e a confiança dos portugueses, essencial para o consumo que já vale 70% do PIB. Só que não é inteiramente verdade. Há setores, especialmente a nível do desenvolvimento social que somos fantásticos, mortalidade infantil, paz, infraestruturas (não ferroviárias), universidades, ambiente, entre muitos e muitos outros, sem falar no recorrente Ronaldo. E é bom louvar, mas não repousar sobre os louros.

 

Este canto das sereias políticas enleva, mas esquece os setores em que somos muito fraquinhos, e isso não nos ajuda nada a melhorar. Desde já temos uma economia muito fraca e uns salários miseráveis, os segundos mais baixos da Zona Euro, apenas atrás da Letónia, e muito do excelente desenvolvimento social é baseado em dívida, porque a economia não aguenta aquilo que merecemos. Ignorar que temos um sério problema de salários, dívida, corrupção, falta de transparência, cegueiras ideológicas, bolsas de pobreza e baixas qualificações é mau.

 

Não é dizer mal de tudo, por ser incorreto e falso, mas dizer que somos muito bons, não nos ajuda a melhorar e até pode cair no ridículo. Vejamos o caso do vírus. Andamos preocupados com o Brasil e os EUA, a praia e os manjericos, repetem-nos o admirado "milagre português" e, no entanto, ao contrário dos outros países, somos barrados de entrar na República Checa, Áustria, Grécia, etc., e atrasados na Espanha. Mais contenção e verdade, por favor. No bom e no mau.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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