Paulo Carmona
Paulo Carmona 15 de maio de 2019 às 19:02

Um futuro mais desigual

Os finalistas do curso de Engenharia Eletrotécnica do IST recebem propostas de emprego de 4.500 a 5.000 euros, recrutados para o Reino Unido ou Alemanha. Os finalistas de Letras ou Ciências Sociais terão à sua espera o desemprego ou salários de 500 a 600 euros.

A FRASE...

 

"Portugal continua a ter níveis de desigualdade social elevados à escala europeia, uma situação que se agravou na última década e se traduziu no aumento da precariedade laboral e da pobreza."

 

Observatório das desigualdades, Observador, 4 de março de 2019

A ANÁLISE...

 

Portugal continua a ter um índice de GINI, o índice que avalia a desigualdade social nos países, dos mais elevados da Europa, o 5.º maior da União Europeia. E a tendência é para se agravar.

 

Claro que as crises financeiras com assistência externa, 3 em 40 anos, não terão ajudado, mas o problema é muito mais extenso. 52% dos portugueses entre os 25 e os 64 anos, segundo dados da OCDE, não terminaram o secundário. A economia do conhecimento e as ruturas tecnológicas criam desigualdades todos os dias. E a nossa base de preparação nesse combate pelas competências é muito baixa. Na economia do amanhã quem tem competências técnicas terá salários milionários, quem não tem sobreviverá com dificuldade em trabalhos mal pagos, um bolo pequeno para as massas sem qualificações técnicas. São os empregos precários, hotelaria, restauração etc.

 

Essa desigualdade começa na Universidade. Os finalistas do curso de Engenharia Eletrotécnica do IST recebem propostas de emprego de 4.500 a 5.000 euros, recrutados para o Reino Unido ou Alemanha. Os finalistas de Letras ou Ciências Sociais terão à sua espera o desemprego ou salários de 500 a 600 euros. A sociedade necessita de todos os tipos de formação, mas não em medida igual, pois há sempre umas que já estão em excesso e outras em falta. Há inclusive uma empresa que recruta engenheiros civis, em sobra face ao fraco investimento público, para os reformatar em programação computacional, em falta. E essa desigualdade, que começa à saída da universidade, é muito difícil de combater, mas não impossível. A Universidade do Minho fê-lo. Viu o mercado de trabalho e as necessidades de emprego e facilidades de colocação dos jovens e dirigiu os cursos para aí. Diminuiu as letras e aumentou os cursos científicos. Resultado, mais emprego, mais investimento tecnológico estrangeiro (Bosch) e mais estudantes milionários que vendem as suas empresas por valores interessantes.

 

A formação é o maior combate à desigualdade. Acentuar a ligação universidade-empresa, autonomizar financeiramente e democratizar as instituições de ensino, reavaliar os cursos e a sua quantidade que a sociedade está disposta a financiar, prevenindo o esbanjar de recursos escassos em cursos que são saídas para o desemprego e para a desilusão e frustração dos jovens.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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