Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Marina Costa Lobo marinacosta.lobo@gmail.com 06 de Junho de 2013 às 00:01

25 anos de Portugal Europeu

Se é certo que o nosso futuro passa pela Europa, não deixa de ser vital questionar se temos a estratégia certa de integração, ou se devemos tentar adaptarmo-nos melhor no tal caminho da busca da diferencialidade e do autoconhecimento português

  • Assine já 1€/1 mês
  • 2
  • ...

Na semana passada foi lançado um estudo da autoria de Augusto Mateus, intitulado "25 anos de Portugal Europeu", que consiste na mais completa análise realizada sobre a evolução da economia, da sociedade e dos fundos estruturais no nosso país. O estudo está disponível para download em (www.ffms.pt)


De todas as suas qualidades intrínsecas – que são muitas tendo em conta a dimensão e estrutura do estudo em causa - há duas que me tocam particularmente, a saber a sua multidimensionalidade e a sua natureza comparativa.

Segundo Dani Rodrik, economista da Universidade de Harvard, a chave do desenvolvimento económico de um país depende da a sua capacidade de "autodescoberta". Isto porque num mundo globalizado e onde as fronteiras são ténues, a competitividade assenta na diferencialidade.

É por isso que a multidimensionalidade deste estudo é tão importante. As dificuldades que neste momento confrontam Portugal não se compreendem sem ter em consideração o contexto social, regional, cultural, ou estatal. Esta vertentes tão distintas tornam possível uma leitura institucional e social do desenvolvimento.

Por outro lado, gostei particularmente da natureza comparativa com os outros países da UE a 27 que este estudo encerra. Isto porque apenas em comparação é que podemos entender a nossa evolução. E também serve para averiguar fenómenos de causalidade fundamentais seja para o "autoconhecimento" do que é que nos torna portugueses, e no caso de ser necessário, como poderemos mudar.

Este estudo é também oportuno no momento político actual, podendo contribuir para uma melhoria da qualidade da democracia pelo menos a três níveis:

Em primeiro lugar, o Estudo pode contribuir para um reequilíbrio urgente e necessário na relação entre o Estado e a sociedade. Este é um problema antigo, e parte do problema passa pela assimetria de informação entre o Estado, preponderante, organizado, fechado e secretista, e do outro lado, uma sociedade civil fraca e desmobilizada. Este estudo Augusto Mateus é mais uma peça importante na tentativa de empoderar a sociedade civil para que se possa fortalecer e exigir o tratamento de igualdade ao estado que muitas vezes este lhe recusa.

Em segundo lugar, o Estudo deve contribuir para melhorar a capacidade de responsabilização dos partidos políticos e dos governos por parte dos eleitores. Todos os dias somos confrontados com a confrangedora falta de recursos políticos e de conhecimento para quem fica de fora das instituições do governo. Além disso, sabemos por exemplo, que as eleições e em particular as campanhas eleitorais são muitas vezes conduzidas em torno de "fait divers" em vez de se focarem nos temas políticos e nas preferências dos partidos em relação às políticas públicas mais importantes. Este estudo permite discussões muito mais sérias sobre o domínio do possível, em vez de promessas irrealizáveis e de slogans vazios.

Por último, o Estudo pode também contribuir para mudar o cariz "Europeísta acrítico" que tem caracterizado o discurso e a prática política dos principais partidos em Portugal. Sabemos que desde a adesão à Europa, tanto PS e PSD aderiram incondicionalmente ao projecto Europeu, nas suas variadas transformações: seja em relação à constituição do mercado único, à adesão ao euro, ao alargamento a leste. Por convicção, mas em parte também por sonambulismo, aliás como a maior parte dos países europeus e seus líderes. O Estudo de Augusto Mateus pode servir para pensarmos com mais instrumentos a nossa realidade, e de que forma podemos contribuir para a integração europeia. Se é certo que o nosso futuro passa pela Europa, não deixa de ser vital questionar se temos a estratégia certa de integração, ou se devemos tentar adaptarmo-nos melhor no tal caminho da busca da diferencialidade e do autoconhecimento português.

Politóloga

marinacosta.lobo@gmail.com

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias