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Marina Costa Lobo marinacosta.lobo@gmail.com 01 de Agosto de 2013 às 00:01

Ler no Verão quente de 2013

Não creio que o autor [João Ferreira do Amaral] consiga explicar muito bem os cenários de futuro, nem que seja particularmente convincentea explicar as vantagens da saída do euro. Mas este livro tem o méritode colocar questões muito importantes para o futuro de Portugal

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Neste Verão quente de 2013 já estivemos à beira de implosões governativas, eleições antecipadas e governos de iniciativa presidencial. Assistimos em directo à rejeição de consensos interpartidários globais, presenciámos a não aprovação de uma moção de censura contra o Governo na Assembleia da República e a aprovação de uma moção de confiança. Tudo isto, e ainda nem chegámos a Agosto. É preciso pôr água nesta fervura colectiva das nossas instituições políticas que nos consomem o espaço mediático diário. Mas como?


Mais do que viver o dia-a-dia das convulsões políticas, talvez seja importante aproveitar o que nos resta deste Verão para pensar um pouco em Portugal – mas a longo-prazo. Será que Portugal tem capacidade para sobreviver enquanto economia viável dentro da Zona Euro? Estamos condenados a um definhamento lento da nossa economia e portanto da nossa sociedade, ou podemos esperar algo mais no próximo futuro? Para dar resposta a estas perguntas sugiro duas leituras distintas.

O primeiro livro, permite dar resposta ao "como chegámos aqui". Trata-se de um estudo da autoria de Daniel Bessa, Pedro Pitta Barros, Manuel Villaverde Cabral e Elísio Estanque. (Acessível em http://www.ffms.pt/estudo/18/25-anos-de-portugal-europeu). São quatro perspectivas sobre a evolução de Portugal na europa usando dados do Estudo "25 Anos de Portugal na europa" realizado por Augusto Mateus para a Fundação Francisco Manuel dos Santos e publicado em Maio de 2013.

Neste estudo consegue-se perfeitamente perceber o enorme caminho percorrido por Portugal, os avanços que se conseguiu em termos de nível de vida e de aumento de oportunidades para os portugueses. Mesmo assim, ficam evidentes algumas evoluções negativas da economia portuguesa. A saber, o nível muito elevado do consumo das famílias nos últimos 15 anos, a falta de produtividade e as consequências negativas que isso foi tendo na nossa incapacidade de gerar convergência com a europa. É uma história de uma deficiente internacionalização da economia portuguesa, sobretudo a partir da nossa entrada no euro com elevadas distorções e bloqueios a nível social com que agora nos debatemos.

Chegados aqui, e tendo em conta a nossa difícil trajectória, a questão seguinte é – devemos sair do euro? Este é ainda um tema tabu no debate político em Portugal, mas é um debate extremamente necessário. No passado, o consenso em torno do euro foi gerado e generalizou-se maioritariamente entre os portugueses. Mas de forma relativamente acrítica, sem grandes fundamentos. Foram à época muito poucas as vozes que se fizeram ouvir frontalmente contra o euro, desde o início da adesão de Portugal à moeda única. Por isso o livro de João Ferreira do Amaral," Porque devemos sair do euro – o divórcio necessário para tirar Portugal da crise" (Lisboa: Leya) é também uma boa leitura para compreendermos os caminhos possíveis para Portugal hoje. Para João Ferreira do Amaral, a adesão ao euro foi um erro económico, e mesmo a melhor das hipóteses futuras – um reforço do federalismo europeu no quadro de mais ajuda para as economias periféricas - não é solução. Porque isso iria apenas agravar a nossa falta de independência política. Depois o autor explica brevemente como estaríamos melhor fora do euro, aprofundando mais as relações com o resto do mundo. Não creio que o autor consiga explicar muito bem os cenários de futuro, nem que seja particularmente convincente a explicar as vantagens da saída do euro. Mas este livro tem o mérito de colocar questões muito importantes para o futuro de Portugal. Vale pois muito a pena ler estes dois livros. Juntos constituem – mesmo que não se concorde – reflexões importantes que vão muito além da vertigem política em que temos vivido e nos ajudam a perceber as opções que temos enquanto país.

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