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Marina Costa Lobo marinacosta.lobo@gmail.com 01 de Abril de 2010 às 11:59

O PSD entre Cavaco Silva e Passos Coelho

Em declarações proferidas recentemente, sente-se a preocupação do Presidente da República. Assim que Passos Coelho foi eleito, Cavaco Silva enviou um recado à nova direcção do seu partido, pedindo estabilidade política. Desiludam-se pois os que...

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Em declarações proferidas recentemente, sente-se a preocupação do Presidente da República. Assim que Passos Coelho foi eleito, Cavaco Silva enviou um recado à nova direcção do seu partido, pedindo estabilidade política. Desiludam-se pois os que querem mudança de Governo já. O Chefe de Estado deu indicação de que apesar de constitucionalmente agora o poder fazer, não tem intenção de dissolver a Assembleia da República antes da eleição presidencial de 2011.

Cavaco voltou também a reiterar o seu apoio ao Governo nas suas duas principais políticas, o orçamento e o Plano de Estabilidade e Crescimento. Tendo o PS ganho com minoria, o apoio do Presidente tem sido fundamental para garantir a sobrevivência do Executivo. Esta postura de Belém tem condicionado totalmente a acção da liderança e do grupo parlamentar do PSD desde as eleições legislativas. A colagem às opções do Presidente foi complementada por uma enorme e crescente acrimónia do principal partido da oposição em relação ao primeiro-ministro, tanto do ponto de vista político como pessoal.

Metido num colete de forças pelo Presidente em relação a todas as questões fundamentais, o PSD de Ferreira Leite optou por fazer oposição, dando primazia a questões como a "asfixia democrática", coisa que manifestamente não surtiu efeito nem nas legislativas, nem mesmo para dentro do partido, como ficou demonstrado nos resultados obtidos por Paulo Rangel nesta última eleição.

A realidade é que Cavaco, seja porque vê nisso a defesa do interesse nacional, seja porque está seguro que a realização de eleições legislativas tão cedo iria prejudicar seriamente as suas hipóteses de reeleição, foi até agora providencial para o Governo e prejudicial para a afirmação do PSD como verdadeiro partido de oposição. E o mesmo se passou com Mário Soares no seu primeiro mandato como Presidente (1986-1991), culminando inclusive com o apoio do então primeiro-ministro Cavaco e do PSD à reeleição de Soares.

No seguimento da eleição directa de Pedro Passos Coelho, por larga maioria de militantes, a questão que se coloca é a seguinte: como é que o Presidente da República - que apoia as grandes decisões do Governo - vai conseguir que este novo PSD siga as regras do jogo pensadas a partir de Belém?

As primeiras reacções do campo do novo líder não auguram grande consenso.

Imediatamente, Passos Coelho anunciou que não se sentia "vinculado" à abstenção de Ferreira Leite na aprovação do PEC há poucos dias na Assembleia da República. E, em entrevista recente, Ângelo Correia afirmou que esta nova liderança não aceitava recados da Presidência neste ponto. Segundo o jornal "i" (29 de Março) várias medidas do PEC precisam de aprovação no Parlamento: "No seu conjunto estas somam uma poupança orçamental de quatro mil milhões de euros, 29% do total previsto no PEC. Entre estas, as que podem estar dependentes de voto favorável do PSD ascendem a 2,6 mil milhões de euros." Passos Coelho avisa que quer negociar tudo isto.

Esta tomada de posição do novo líder pode simplesmente servir para justificar a eleição junto dos militantes que esperam alguma acção concreta. Além disso, no curto prazo, talvez os objectivos deste PSD não sejam muito diferentes dos de Cavaco Silva. É evidente que o calendário político joga a favor da estratégia do Presidente. Nos próximos tempos, Pedro Passos Coelho terá de testar as águas turbulentas das sondagens políticas na tentativa de construir uma imagem nacional que ainda não tem. Esse objectivo estará também dificultado pelo facto do grupo parlamentar do PSD ter sido pensado por Ferreira Leite, e por tê-lo excluído a ele, Passos Coelho, das listas. Portanto, não só o novo líder tem de se projectar nacionalmente, como tem que tentar impor-se ao grupo parlamentar a partir de fora.

Assim, cada vez mais o PSD tenderá a estar rendido à estratégia de reeleição de Cavaco. Mas poderá surgir uma dissonância grande entre a nova liderança do PSD e Cavaco Silva, arriscando-se este a ter uma campanha eleitoral bastante desmobilizadora para o eleitorado de direita, com Cavaco a ter de explicar porque apoia um PEC que o seu partido gostaria de alterar substancialmente.


Politóloga
marinacosta.lobo@gmail.com
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