Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 20 de maio de 2018 às 21:02

Bruno de Carvalho "foi o instigador moral da violência de Alcochete" e a "sua saída é uma questão de dias"

As notas da semana de Marques Mendes nos seus comentários na SIC. O comentador fala sobre a crise no Sporting, a violência no futebol, os devedores aos Bancos, o Congresso do PS, o movimento pelo interior e a Europa em turbulência.

BRUNO DE CARVALHO DE SAÍDA?

 

  1.      Acabou o ciclo de Bruno de carvalho. A sua saída é uma questão de dias. E ele é o único culpado de tudo isto. Até terá feito coisas positivas: a regeneração financeira do Sporting; o reforço da sua projeção desportiva; a construção de infraestruturas para as actividades amadoras. 
  1.      Só que nos últimos tempos cometeu alguns pecados fatais:

a)     Primeiro: quis ser o Pinto da Costa do Sporting e falhou. Deslumbrou-se com o poder, abusou do poder e quis ser o dono do clube. Isto foi-lhe fatal.

b)     Segundo: teve uma síndrome napoleónica e quis controlar tudo, quis mandar em todos e disparou em todas as direcções. Outro erro fatal.

c)      Terceiro: não percebeu que num clube de futebol o mais importante não é o presidente, nem são os directores, nem os treinadores. São os jogadores. Afrontar os jogadores é o suicídio para qualquer um.

d)     Finalmente: foi o instigador moral da violência de Alcochete. Foi o seu discurso irresponsável que criou a atmosfera que levou aos acontecimentos desta semana. Só isto implicava a sua saída.

 

  1.      Finalmente: o risco do populismo. Uma grande parte dos sócios do Sporting só agora se apercebeu dos vícios do seu presidente. Já há anos tinha sucedido o mesmo fenómeno no Benfica com Vale e Azevedo. Convinha, no futuro, haver mais atenção! É com estas desatenções que se vai deixando medrar o populismo. Hoje no futebol. Amanhã na política. Depois não se queixem!

 

VIOLÊNCIA NO FUTEBOL – DE QUEM É A CULPA?

 

  1.      De quem é a culpa da violência no futebol? Primeiro, dos clubes, porque estão nas mãos das claques; depois, da Liga que está nas mãos dos clubes; e, finalmente, dos governos, que são fracos, incompetentes e têm medo de agir. A FPF é a única que tem alertado e batido o pé. 
  1.      Vejamos alguns exemplos:

a)     Primeiro: os políticos passam a vida de braço dado com os dirigentes do futebol. Depois não têm autoridade nem independência para agir. Fazem vista grossa a tudo.

b)     Segundo: não há coragem de aplicar sanções. Olhemos para o caso de Alcochete:

  •        A justiça e a política agiram, e bem.
  •        Do lado desportivo, todos falharam, e mal.
  •        Algum dos prevaricadores foi expulso de sócio do Sporting? Algum dos prevaricadores foi inibido de entrar nos estádios de futebol? Algum inquérito disciplinar? O Sporting, a Liga ou os organismos do Estado tomaram alguma decisão? Nada. Hoje é no Sporting. No passado foi no FCPorto ou no Benfica. A história repete-se e ninguém actua.

c)      Terceiro: não há coragem de controlar as claques e sancionar os clubes quando as claques prevaricam. Se o futebol é um mundo à parte, as claques são verdadeiros Estados dentro do Estado.

  •        São escolas de crime e ninguém lhes vai à mão.
  •        São guardas pretorianas dos presidentes dos clubes e acabam a mandar nos presidentes, sem que ninguém ponha ordem na casa.
  •        É assim no Sporting. É assim no FCPorto e é assim no Benfica. Alguém agiu? Nem os clubes. Nem a Liga. Nem os governos. Todos fazem vista grossa.

d)     Quarto: além de fraqueza, só se vê incompetência. Toda a gente diz que temos as melhores leis do mundo. É mentira. A nossa lei contra a violência no desporto só permite aplicar sanções acessórias (tipo interdições) no âmbito dos espectáculos desportivos. E fora destes, como é o caso de Alcochete? Como não havia espectáculo desportivo, a lei não se aplica. Como é possível? Por que é que não se corrigiu e alterou a lei? Isto é incompetência à solta.

 

  1.      Apelo ao Presidente da RepúblicaO PR tem falado muito, e bem, dos riscos do populismo. Ora, o populismo também se alimenta disto: do medo; da insegurança; do extremismo; da fragilidade das instituições. Pois bem. Gostaria de ver o PR a "obrigar" o Governo a tomar medidas e a aplicar sanções a sério para combater a violência no desporto. Porque os clubes nunca aplicarão uma única sanção. Se o fizer, o PR dará uma boa ajuda para combater o populismo. É que o populismo combate-se agindo e não só falando. No futebol e na política. 

 

OS DEVEDORES AOS BANCOS

 

  1.      Há muito que reclamo – tal como outros – que os bancos que tiveram ajudas do Estado devem divulgar a lista dos seus principais devedores. Os banqueiros, a começar no Banco de Portugal, normalmente opõem-se. 
  1.      Esta semana, tivemos esta coisa curiosa: um dos mais prestigiados banqueiros do mundo – Horta Osório, Presidente do Lloyds Bank em Inglaterra – veio dizer o seguinte:
  •        Se há lucros, os accionistas dos bancos beneficiam. Se há perdas, os accionistas têm de assumir as suas responsabilidades e injectar capital.
  •        Se não o podem fazer e o Estado tem de intervir, então é da mais elementar justiça que o país saiba ao menos quem foram os grandes devedores dos bancos que originaram prejuízos, buracos e imparidades.

 

  1.      Foi preciso ser um banqueiro vindo de fora – e um dos mais influentes do mundo – a dizer o que nenhum banqueiro em Portugal ousa dizer, apesar de ser de meridiana clareza e transparência. Afinal, ainda somos muito provincianos.

 

  1.      Esperemos, agora, que o Parlamento mude a lei para que a transparência se afirme em definitivo.

 

O CONGRESSO DO PS

 

  1.      O que vai ser este Congresso? Um congresso sem história.

a)     Primeiro: será um super comício televisivo. Uma oportunidade para louvar a acção do Governo; afirmar algumas ideias gerais para o futuro; apelar ao voto dos portugueses.

b)     Segundo: será um congresso para fazer um contraste com o PSD. O PSD não lança temas novos e aposta em quadros antigos. O PS apostará:

  •        No lançamento de novos temas (a demografia; o digital; o clima; as desigualdades sociais);
  •        No lançamento de novos quadros (vão subir a lugares de direcção jovens como Pedro Nuno Santos, Mariana Vieira da Silva, Alexandre Leitão, Ana Mendes Godinho e outros)

c)      Terceiro: será um congresso com um líder aclamado (António Costa) e um potencial líder que se vai lançar para o pós-Costa: Pedro Nuno Santos. Com a curiosidade de que António Costa se posicionou ao centro e Pedro Nuno Santos se afirma pela esquerda.

  •        Tudo por uma razão. Ao centro, ganham-se eleições no país. À esquerda ganham-se eleições no PS.
  •        Pedro Nuno, surgindo pela esquerda, tem uma vantagem e uma desvantagem: a vantagem é poder ter mais facilidade de ganhar o PS. A desvantagem é que, pela esquerda, dificilmente ganha o país.

 

  1.      O que não vai ser este Congresso?

a)     Não vai ser um debate de política de alianças (o PS quer a maioria absoluta);

b)     Não vai ser um debate ideológico (esse ficará para o pós-costismo);

c)      Não vai ser um debate de programas eleitorais (esse fica para as duas próximas convenções);

d)     Não vai se um debate sobre Sócrates – Costa não terá uma palavra sobre Sócrates. E não é provável que alguém de destaque o faça. Afinal, todos estão aliviados com a saída de Sócrates.


MOVIMENTO PELO INTERIOR

 

  1.      O Movimento pelo interior, liderado por Álvaro Amaro e Rui Santos (respectivamente Presidentes das Câmaras da Guarda e de Vila Real), apresentou o seu trabalho com várias propostas radicais para desenvolver o interior do país.

Foi talvez o acontecimento mais importante da semana política. Porém, passou despercebido. O Sporting eclipsou tudo. É a vida. O show-off impõe-se à substância.

 

  1.      O que dizer desta iniciativa?

a)     Primeiro, uma saudação: um belo trabalho de uma bela iniciativa da sociedade civil. Boas propostas, inovadoras e radicais, em matéria fiscal, de educação e na administração pública, com vista a atrair investimento e fixar pessoas no interior.

b)     Segundo, uma certeza: um programa destes, ainda por cima para 12 anos, merecia bem um Acordo de regime entre os partidos. Seria um acordo de regime inda mais importante que os dois que foram assinados entre PS e PSD. Mais uma oportunidade perdida.

c)      Terceiro, uma dúvida: será que este programa vai mudar a face do interior? Tenho sérias dúvidas. Primeiro, porque não houve qualquer acordo entre partidos. Depois, porque o Governo se comprometeu apenas a analisar e não a fazer. Finalmente, porque o peso político do Portugal do interior é o que é e não o que gostaríamos que fosse. 

 

 

 

A EUROPA EM TURBULÊNCIA?

 

  1.      ItáliaMais um susto

a)     Um novo governo populista – Populismo à esquerda e populismo à direita. Os extremos cruzam-se.

b)     Um governo populista com um programa anti-europeu – Mais um pesadelo para a UE.

c)      Ainda por cima em vésperas da Reforma da Zona Euro, preparada por Merkel e Macron. Não augura nada de bom.

 

  1.      CatalunhaUm novo susto

a)     Temos novo Governo regional – mas o mesmo radicalismo do passado;

b)     Um Presidente radical e ministros ausentes: ou estão presos ou exilados – uma verdadeira provocação;

c)      Anda toda a gente descontraída mas o caso da Catalunha, aqui ao pé de nós, tem, dentro de si, todas as sementes da instabilidade: instabilidade política e económica. E uma constipação económica em Espanha é uma pneumonia em Portugal.

 

  1.      Finalmente, uma boa notícia.
  •        Há no Parlamento Europeu um prémio com o nome de Lucas Pires.
  •        Por proposta de Paulo Rangel, vai ser atribuído esta semana a Lech Walesa, o herói sindical e político polaco.
  •        Uma homenagem justa – ao polaco e ao português, que faleceu há 20 anos.
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